Afinal, quem vai ser o patrono da Educação Brasileira?

BISCOITO FINO

“A massa ainda comerá do biscoito fino que eu produzo

Oswald de Andrade

Por: Simone de Antonio*

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É como a história do Papai Noel…

Ele tinha aquela cara de Papai Noel e eu tinha enorme simpatia por ele quando entrei na faculdade de Letras, nos idos tempos. Não demorou pra que eu percebesse que ele era uma verdadeira obsessão dos professores de Pedagogia. Paulo Freire era tão endeusado, que eu já nem o estudava, bastava elogiar ou explanar qualquer teoria sua: diga-se de passagem, duas ou três frases para tirar um 10 na prova. “Batata!”, como diria Nelson Rodrigues, meu anjo pornográfico.

Num nível pessoal, sempre achei os livros dele chatos. Ele escrevia mal, era ideológico e repetitivo, e sua teoria de educação parecia fragmentada, cheia de lacunas, dispersa e bem pouco prática. Sem falar que nada daquilo era aplicado na prática em lugar nenhum, muito menos numa escola pública, que seria uma verdadeira prova de fogo.

Mas o fato de não ser aplicada, a não ser num universo de 300 camponeses no Rio Grande do Norte, como seu próprio amigo pessoal, afirmou – o historiador e doutor em Educação José Eustáquio Romão – não foi motivo suficiente para que ele não fosse escolhido como o patrono. Afinal, no Brasil, basta que seja teoricamente possível fazer algo, mesmo que não seja feito, a promessa vale como cumprido. Principalmente se for aprovado lá fora por uma meia dúzia de acadêmicos.

Segundo o próprio Romão, Paulo Freire nunca foi aplicado no Brasil:

Alguns críticos falam muita bobagem, dizem que a educação brasileira está ruim porque Paulo Freire está sendo aplicado. Primeiro, Paulo Freire nunca foi aplicado na educação brasileira. Estamos lutando para ver se ele entra nas universidades até hoje. (…) Ele entra como frase de efeito, como título de biblioteca, nome de salão. Isso eu já vi no Brasil inteiro. Mas o pensamento dele não entrou até hoje.

Bom, era o que eu desconfiava. Não sei por que isso não me espanta nem um pouco, pois, o fato é que, independente da minha paixão esquerdista por Paulo Freire, pessoalmente, nunca conheci uma só pessoa que tivesse sido alfabetizada pelo método que ele criou. As pessoas que eu conheço ou foram bem alfabetizadas pelo método “vovô viu a uva”, ou… bem…ou não foram. São analfabetas funcionais.  Dito isto só nos resta acreditar no que o professor Romão diz sobre esse poderoso método de alfabetização:

Fui a Angicos, no sertão do Rio Grande do Norte, porque lá, Paulo Freire, com um grupo de estudantes – nenhum deles de Educação – alfabetizou primeiro uma turma de 30 e, no final, 300 camponeses. Por que hoje a gente começa com uma turma de 30 adultos e termina com três? Por que eles não aguentam o curso? Conseguimos conversar com os alfabetizados daquela época. Eu saí convencido de que, se aplicarmos hoje o que fizeram lá, acabamos com o analfabetismo no Brasil em um ano. É tão simples.A pessoa precisa aprender que as letras constroem as palavras, mas não vai ter interesse nenhum se não souber pra que a palavra serve na sua vida. Por isso, um “círculo de cultura” substitui a aula. Nele, você vai discutir a vida das pessoas. Parece que está perdendo tempo, mas em um mês eles são alfabetizados, com 40 horas de aula.

Parece mesmo milagroso!

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Só mais um nome na parede em ruínas?

Afinal, quem se importa com um título desses, sinceramente? É como se importar que na bandeira brasileira esteja escrito “Ordem e Progresso” e isso aqui seja uma verdadeira zorra, contrariando esses dizeres “lindos”, ou se importar que José Sarney faça parte da Academia Brasileira de Letras…

Porém, nem todos pensam assim e também nisso, movem-se em direções contrárias, nossa direita truculenta e nossa esquerda ensaboada, as duas unidas na luta eterna.

Uma aluna raivosa do curso de Direito moveu uma petição que arrecadou ao longo de muitos meses mais de 21 mil assinaturas para retirar de Paulo Freire a condecoração, o título de Patrono Educador do Brasil, posto a que foi alçado no governo Dilma.

Assim, enquanto Paulo Freire jaz frio no túmulo, ignorando o que se passa, a esquerda, mais do que pronta pra batalha, levantou seus soldados, reagindo prontamente.  E foi também colher suas assinaturazinhas. Agora é tête-à-tête.

A esquerda, ao que parece, colheu suas assinaturas não junto à população. Por ser mais competente nesses quesitos, afinal aqui não se trata de uma alunazinha qualquer do curso de Direito, estamos falando de peixe grande. Pois bem, a esquerda recorreu a órgãos internacionais.  A revista Cult publicou:

Já na segunda (16), quando a petição do IPF foi ao ar na plataforma online, 400 assinaturas foram reunidas; até a última segunda (23) havia 22.211 – incluindo representantes de instituições como a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação, a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação e o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo. Além das instituições, se prontificaram a apoiar a causa da Deputada Federal Luiza Erundina (PSOL), autora da lei que institui Freire como patrono; Daniel Cara, da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, e Ana Maria Araújo Freire, conhecida como Nita Freire, viúva do pensador e responsável por todo o seu acervo. Para além do Brasil, instituições internacionais também assinaram a petição, repudiando o Escola Sem Partido. A Universidade de Stanford, a Korbel School of International Studies e a Universidade de Denver são algumas delas, junto aos IPFs da Argentina, da África do Sul, de Cabo Verde, dos Estados Unidos, da Espanha, da Alemanha, de Portugal e da Itália. Há, ainda, assinaturas de intelectuais como Manuel Castells, Joelle Cordesse, Ramon Moncada e do ex-ministro de educação da Nicarágua, Carlos Tünnermann Bernheim.

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Ele nem vai colocar a barba de molho

A aluna direitista se pronunciou dizendo que a petição não tem qualquer relação com o “Escola sem Partido”. Mas a esquerda faz naturalmente essas relações porque o sangue corre nas veias e a “Faixa de Gaza” brasileira entre direita e esquerda está ficando esdrúxula, como se percebe a cada dia. E até um patrono morto, um simples título “inútil” para alguns e que só tem efeito moral, ganha ares de preliminares de guerra. Porque nesse caso, ambas querem manter o território cultural escolhido em evidência a qualquer preço e qualquer coisa vale – até eleger Anita como mulher do ano – num golpe populista.

Pouco importa que Paulo Freire fique ou não com o título, e, sinceramente não fará a menor diferença nas nossas vidas, vamos continuar sendo, como sabemos, um dos piores países em educação de todo o globo terrestre, com Paulo Freire ou sem Paulo Freire. Não é um título que vai nos tirar deste atoleiro. Mas a única pergunta que salta aos olhos e realmente intriga é: por que colher assinaturas de gente da Argentina, Portugal, Itália, África do Sul, Estados Unidos etc? Complexo de vira lata? Paulo Freire é nosso patrono ou deles? Argumento de autoridade? Precisamos mesmo que alguém nos diga quem deve ser o nosso patrono?  Um governo? Uma instituição internacional? Uma viúva? Professores de Universidade?  Por que não escolhemos um, todos nós?

Essa questão é pertinente e mostra que somos moralmente destituídos de alta estima – o que aliás, é compreensível.

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Sem Paulo, serve Pedro

E, devo dizer que, ao contrário do que pensam alguns, nem todo mundo lá fora aprecia o trabalho de Freire. Em “John Ohliger: Critical views of Paulo Freire´s Work”, você pode encontrar uma série de críticas ao trabalho do professor, o que escapa, obviamente ao teor desta crônica, mas pra quem gosta de se informar por todos os lados, fica a dica.

E claro, ninguém perguntou para o povo, pra suposta democracia, quem eles gostariam de ver como patrono da educação…

Se tivessem me perguntado, teria dito de pronto, sem pestanejar: se não quiserem Paulo Freire, voto em D. Pedro II para Patrono da Educação Brasileira. E ele também tinha cara de Papai Noel!

É preciso trabalhar e vejo que não se fala, quase senão, em política que é, as mais das vezes, guerra entre interesses individuais – D. Pedro II

 

 

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