Baile de Favela veste Prata no Olimpo

“Sou preta, e quero representar todas as cores. Eu acredito que eu tenha feito isso, trazendo essa música (Baile de Favela) para cá”, reflete a medalhista

baile de favela
Baile de favela veste prata

Douglas Caputo*

Harpa no Olimpo é coisa do passado. Enquanto Rebeca Andrade conquistava a Prata inédita para a ginástica artística brasileira, os deuses gregos se curvavam – ou melhor – rabeavam ao som de “Baile da Favela”, funk que MC João lançou em 2015.

Se você não conhece o tal Baile de Favela do tal MC João talvez seja, porque, ainda há um fosso que separa a Cultura da cultura. Essas grafias com letra maiúscula e minúscula, certamente, fazem toda a diferença em se tratando do funk ouvido pelo mundo nessa quinta (29).

A Cultura, escrita assim, com “C” maiúsculo, é o lugar das belas e intocáveis artes. É a erudição. É a “Tocata e Fuga”, do alemão Johann Sebastian Bach, que abriu a apresentação de Rebeca no solo. Essa Cultura impõe o que é “bom” e descarta o que é “ruim”. Maniqueísta e deterministicamente.  

É quase um grito inesperado de Simone Biles no centro de ginástica Ariake, em Tóquio: “Vou competir”. Mas, Biles não gritou coisa alguma. Pelo contrário, aplaudiu a apresentação da ginasta brasileira. E, como quem diz, lacrou no pesadão.

Marginalizada, a cultura, essa com “c” minúsculo, é o elemento vivo de um povo. Mais do que isso, é a representação que se tem de diferentes recortes sociais. Mesmo que tentem silenciá-la, lá está ela, no pódio e no ouvido dos intelectualoides com cara de fuinha – e de tacho – ao tomarem nota do Baile de Favela dos olimpianos. 

Meu Baile de Favela

Confesso que não conhecia o MC João até a prata de Rebeca brilhar. O funk, no entanto, já havia ouvido algumas vezes. Mas, encarcerado na minha redoma de Cultura, não sabia nem os versos do refrão.  Porém, sem fazer cara de fuinha, passei a cantar com satisfação a música brasileira.

Embora seja um proibidão e me falte coragem para reproduzir alguns versos da letra original, modificada para uma versão amena, é incontestável que Baile de Favela é uma expressão cultural de jovens que vivem nas periferias.

Esses mesmos jovens – quase – silenciados por aquela tal Cultura conseguem romper o mainstream e fazer “os menor preparado” alcançarem o topo do Olimpo. As caras de fuinha vão continuar, apesar do Baile de Favela entrar para história nas Olimpíadas do Japão. Que o diga Rebeca Andrade.

“O funk é um dos estilos mais escutados, é cultura brasileira. Eu adoro funk, as batidas são demais! Fico feliz em saber que todo mundo gostou e que deu repercussão. Está sendo incrível”, comemora Rebeca ao mesmo tempo que completa:

“Sou preta, e quero representar todas as cores. Os pretos, brancos, todas elas. As pessoas querem ser você, serem parecidas com você. Eu acredito que eu tenha feito isso, trazendo essa música (Baile de Favela) para cá”, declarou a ginasta em entrevista.  

Você pode até não gostar de funk. Mas negar-lhe a condição de bem cultural é negar Rebeca, é negar a prata, o preto. É ser conivente com a cultura branca, burguesa. É ser genocida do mais legítimo saber produzido pelas múltiplas identificações culturais.

*Jornalista – MTB: 18844/MG

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