Jonas Dias de Souza – SJDR

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Ação dramática do pós-modernismo grego

A indústria do entretenimento descobriu, há muito tempo, uma forma de se fazer novela. Acrescentou ações rápidas, explosões e outros efeitos especiais e, após segmentar por nichos de preferência, consolidou-se o que chamamos de série.

Zumbis, cavalheiros medievais, vikings e criaturas do reino das fadas inundam os canais ao longo do orbe terrestre.  Percebemos que no fundo de nossa humanidade acalentamos aquela vontade de entrar nas peles dos heróis e, alguns, até na pele dos bandidos, não se iludam.

Seria esta forma de entretenimento uma máscara grega pós-moderna? Um esconderijo para o homem que não consegue entender as tradições antigas do comportamento em sociedade e conciliá-los com a necessidade de quebrarmos paradigmas?

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Olhos cegos para ver a memória construída pela máquina

Este Espelho Preto (numa tradução ‘googliana’) mostra, de forma satírica, os perigos das novas tecnologias, que já não são tão novas, considerada a velocidade do gênio inventivo humano. As novas tecnologias permitiram uma exposição exacerbada e descontrolada da privacidade humana.

Tal como a postagem da primeira fralda suja do nenê. Um pano sujo de um excremento verde abacate inundando sem permissão a tela da minha máquina de ligação virtual em sociedade. Se Del Priore se dedicasse a escrever um livro sobre este tema, a exemplo de uma de suas obras (Histórias Íntimas. Sexualidade e Erotismo na História do Brasil. São Paulo: Editora Planeta, 2011) teria que escrever uma enciclopédia.

Mas o que Black Mirror nos mostra é o quanto podemos ser perversos quando nos escondemos atrás da máscara tecnológica. O quanto coisificamos o outro, esquecendo que são sujeitos e não meros objetos alvos de nosso desamor. O quanto carecemos de comunicação real (à moda antiga).

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Um jogo que pode ser sem volta

O ser humano tem a capacidade de esconder-se atrás de um monitor e derrubar todas as barreiras morais que permeiam a vida em sociedade.

Esta maldade velada, propiciada pelo anonimato (que graças a mesma tecnologia já não é assim tão anônima) é fruto de um esquecimento dos ensinamentos de amor e fraternidade que Cristo nos ensinou.

O bullying virtual é levado a efeito pelo senhor carismático e verdadeiro pai de família; pela senhora virtuosa e pelo jovem universitário; por todos que tendo acesso a uma rede social podem se esquecer que são homens e não máquinas.

Durante a normalidade cotidiana, há pessoas que conseguem colocar a máscara da sanidade e, ao entrar em contato com o anonimato da rede, transformam-se.

Matrix de Black Mirror

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Curtiram, logo existo

O que Black Mirror tem de melhor é trazer à tona esta reflexão sobre o desconforto contemporâneo em relação à modernidade e suas tecnologias.

Enquanto o nosso consciente freia os nossos atos imorais, a tecnologia permite que este freio não funcione.

O que dá para perceber é uma luta interna que leva para caminhos nada saudáveis, se perdermos a nossa humanidade para a tecnologia, caminharemos para a Matrix inexplicável das mentes doentes que se regozijam somente com milhares de likes. Não se engane!

Se a sua felicidade depende dos likes dados na foto de seu hambúrguer numa rede de fast food, a sua mente está adoecendo. Circula uma frase atribuída a Einstein: “Se tornou aparentemente óbvio que nossa tecnologia excedeu nossa humanidade”.

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Existe alguém por trás de Waldo?

Nesse contexto, os likes são como bombas que detonam a produção de substâncias cerebrais que nos proporcionam alívio.

Seguindo a lógica do vício em drogas, quanto mais resistência, maior quantidade para os mesmos efeitos.

Chegará um ponto que precisaremos de uma quantidade de likes cada vez maior.

Eis aí a explicação para um youtuber expor-se ao risco de morte na insana tentativa de provar que um livro segura um projetil de arma de fogo.

Podemos ter nossas vidas revolucionadas pela tecnologia, mas continuamos dando respostas pela tradição, memória e mito.

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O que é o virtual – ou real?

Está na moda postar a foto do meu prato de comida, mesmo que eu esteja triste e melancólico e não esteja com vontade nenhuma de expor a minha vida.

Precisamos aprender a ler o que é que é fantástico, imaginário, inquestionável, sobrenatural, vestido de fantasias, incoerência e irracionalidade (mito).

E aprender também a ler o que é verdadeiro, real, coerente, questionável e lógico (filosofia).  Isto não significa não podermos nos divertir com as séries e as infindáveis bacias de pipoca.

*Jonas Dias de Souza é graduado em Filosofia pela UFSJ

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