Caetano, sexo e censura

BISCOITO FINO

“A massa ainda comerá do biscoito fino que eu produzo

Oswald de Andrade

Por: Simone de Antonio*

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“Afasta de mim esse cálice” (Imagens da internet)

Caetano foi impedido de fazer um show recentemente, após a grande confusão em que se meteu envolvendo homem nu, museus, banco Santander e a alarmada censura que ele e alguns artistas da Globo insistem em dizer que existe na sociedade brasileira como um todo, vinda da parte de seus cidadãos caretas, preconceituosos e reacionários – segundo eles. Ele afirmou que desde a ditadura algo assim não lhe acontecia.

Engraçado que não me acontecia também ouvir falar de um show de Caetano com tanto alarde pelo menos nos últimos 10 anos.  Não que eu seja dessas pessoas que confere na mídia shows e alardes de Caetano. É claro que eu respeito e gosto de Caetano como artista, mas deve ser tão caro um show dele, que mesmo que eu soubesse e/ou quisesse ir não poderia pagar (quem pode pagar em média R$300 por um show? E, dependendo do teatro e do lugar escolhido, pode chegar a R$800 e até a R$1 mil). Não nós. Simples mortais, que, para ir ao Rock in Rio, pagamos à prestação.

Mas, em termos comparativos, o Rock in Rio é um evento que leva milhões de pessoas e traz um mundo de artistas dos mais diversos gostos, embora teoricamente devesse ser somente rock, observamos que ele está mais pra geleia geral brasileira (só pra usar aqui um termo ligada à Tropicália), essa mesma que conduziu Caetano à fama.  Mas Caetano é um só, portanto é mais vantajoso, para quem não tem dinheiro, pagar por um show de rock em que verá pelo menos três ou quatro bandas muito boas com shows em torno de duas horas cada, do que pagar para ouvir Caetano cantando sozinho por duas horas.

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“Nádegas a declarar”

Caetano é um só, repito. Por mais alarde que ele faça pra se multiplicar por aí, pois é fato que esteve tão rapidamente, após os últimos eventos envolvendo a “censura” daqui pra lá correndo feito uma lebre louca e, logo após se pronunciar sobre o evento do Santander de São Paulo, já estava em tempo recorde em Belo Horizonte, fazendo o quê? Promovendo, é claro, junto com Paula Lavigne, mais uma exposição sobre sexualidade. Sim, digo promovendo, pois, quando um artista do porte de Caetano assiste a um evento e se pronuncia sobre ele debaixo dos holofotes, com jornalistas a postos lhe fazendo perguntas sobre censura, ditadura etc., não se pode dizer que ele estava lá simplesmente para assistir e prestigiar outra exposição que tinha como tema a sexualidade…

Pelo visto, os artistas plásticos não conseguem parar de pensar em sexo. É um mistério!

Sexo é o assunto do dia. Não há um só evento cultural recente na mídia brasileira que não envolva “o cu e as calças”. Por que será? O que interessa o que alguém faz ou deixou de fazer e com quem? Dane-se…

Sexo todo mundo pratica e já saímos da revolução sexual propriamente dita tem tempo, mas agora vivemos a super-hiper-trans revolução sexual.  Onde, cada um pode viver e ser o que quiser a hora que quiser.

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Pós-pós-pós-pós…

Isso não é de hoje, não aconteceu de uma hora pra outra. Há tempos isso vem acontecendo entre os jovens. Lembro-me de minha filha me contando há uns bons anos sobre uma amiga que, durante toda a adolescência, se definia como heterossexual, num belo dia acordou bi e uma semana depois, virou uma lésbica perfeita e unilateral. Como aconteceu a transformação, é um mistério que não se pode explicar tão facilmente e o mesmo pensou sua mãe que a expulsou de casa, prontamente, sem dó nem piedade. Pelo que sei do desenrolar dessa história, essa pobre garota expulsa de casa continua banida e lésbica, mas, sobre este último, nunca se sabe…

Num mundo em que os jovens já não conseguem se identificar tão facilmente com o próprio sexo (na Inglaterra estima-se que 80% dos jovens têm dificuldade para definir a própria sexualidade, segundo uma dessas muitas pesquisas malucas que só os anglo-saxões se esmeram em fazer…) é difícil dizer qual será a cara, o universo das próximas gerações. Talvez os heteros e os nossos homos sejam espécime em extinção. E, o que surja no pós-pós-apocalíptico – intervalo-dilúvico-da-estratosfera-sexual seja um híbrido de nem uma coisa com coisa nenhuma ou tudo de alguma coisa “dentro doida”. E digo isso, sem susto, porque, já se sabe: “É preciso estar atento e forte”.

Sobre Caetano, já sabemos: o show não aconteceu e, assim, ele pode continuar metendo o pau na censura, para sua alegria total e completa, pois se não era isso mesmo o que queria!  A juíza embargou porque ele escolheu fazer um show em espaço “impróprio”. Segundo Caetano, “houve má vontade”. Fatos: o show ocorreria num terreno reivindicado pelo MSTS na cidade. Onde? Em São Bernardo, ali pertinho de onde Lula começou sua carreira, mas nada disso tem a ver com política, obviamente…

trem-de-ler

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