Capelinha está em festa

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Capelinha comemora Festa de Setembro

Desta sexta (22) até segunda (25), Capelinha é só festa. No domingo (24), é dia da padroeira, Nossa Senhora das Mercês, e aniversário de 70 anos da Paróquia. Já na segunda, o bolo é para os 55 anos de instalação do distrito, que fica a 27 quilômetros da sede, São Tiago.

O local ainda preserva as tradições das pequenas comunidades de Minas Gerais. Talvez, a principal delas, seja a hospitalidade. Segundo a dona de casa Flávia da Silva Resende, o água-limpense mantém a porta aberta uns para os outros e também para quem visita o distrito.

“Nossa comunidade é muito unida, todo mundo está pronto para ajudar, como se fosse uma grande família mesmo. Entramos nas casas dos vizinhos sem nem tocar a campainha, pois todos têm muita confiança uns nos outros”, destaca Flávia.

Mesmo quem não nasceu em Mercês de Água Limpa faz questão de declarar o amor pela localidade. Exemplo disso é a funcionária pública Carlita de Castro e Coelho. Ela mudou de São Tiago para Capelinha há 34 anos e garante que não arreda mais o pé de lá.

“Adotei o distrito como minha terra, meus filhos foram criados aqui, amizades nasceram e permanecem até hoje nestes arredores. Tenho um vínculo muito grande com a Escola e a Paróquia, o que me faz sentir útil e valorizada. Criei raízes tão profundas que não saio daqui mais”, acentua Carlita.

História de Capelinha

Passado (Foto: Facebook/Mercês de Água Limpa)

Sim. O nome de batismo do distrito de São Tiago é Capelinha, conforme atesta o funcionário público, Jorge Canaan. Desde 1980, Jorginho, como é chamado, virou um historiador do distrito, a maior parte das narrativas vieram do boca a boca através de diferentes gerações.

“O barão e baronesa de Coqueiros foram os primeiros moradores, isso por volta de 1830 – 1840. No local onde hoje está Capelinha, o casal tinha uma fazenda em que criava cavalos. Por isso, o nome Córrego do Potreiro, que margeia o atual distrito”, conta Jorginho.

Além do Potreiro, o Córrego das Paulinas foi responsável pelo estabelecimento das primeiras famílias na localidade. “Como naquele tempo não havia bomba d’água, as pessoas construíam perto de rios, para facilitar a captação de água. Isso foi trazendo os nosso antepassados para cá”, explica Jorginho.

O barão de Coqueiros mais os primeiros moradores ergueram uma pequena capela no local que hoje fica a Matriz de Mercês de Água Limpa. “Por isso, a primeira denominação da vila foi Capelinha”, diz o historiador.

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24 de setembro é dia da padroeira (Foto: Carlita Castro)

No final do século 19, Capelinha recebeu a visita do então arcebispo de Mariana, Dom Silvério Gomes Pinto. Logo que viu o Ribeirão da Água Limpa, o religioso apeou do cavalo, matou a sede e decidiu-se sobre a padroeira do distrito.

“Reza a lenda que Dom Silvério, ao chegar ao Ribeirão, distante um quilômetro da vila, pegou o livro dos santos. Como era 24 de setembro (o ano é incerto), Dom Silvério verificou que era o dia de Nossa Senhora das Mercês, que virou padroeira da localidade”, afirma Jorginho.

Teria sido da junção do nomes da Santa e do Ribeirão que a localidade deixou de ser chamada de Capelinha e passou a ser conhecida como Mercês de Água Limpa. “Encontrei na Paróquia uma cara de 1908 que já trazia o novo nome. Creio que este seja um dos primeiros documentos escritos que fazem referência à nova denominação da vila”, revela o historiador.

Em 1953, foi elaborada a lei que definia Mercês de Água Limpa como distrito de São Tiago. Mas foi apenas em 12 de dezembro de 1962 que o distrito foi criado oficialmente. Anos mais tarde, um decreto transferiu a data de aniversário do local para 25 de setembro, unindo as festividades religiosas com as oficiais.

Causos do minério

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Mistérios do distrito (Foto: Facebook/Mercês de Água Limpa)

A região de Capelinha é um importante polo minerador do estado. As empresas estabelecidas próximas ao distrito empregam boa parte população de cerca de três mil pessoas, o que impacta positivamente em toda a economia do município.

Além de gerar emprego e renda, o minério rende causos que fazem parte da história de Capelinha. Um desses episódios aconteceu em 1918, quando mineradores destruíram casas do distrito e teriam sido amaldiçoados pelas famosas pragas do padre José Duque de Siqueira.

Durante a Festa daquele ano, havia sido armado um circo em Capelinha. Garimpeiros de fora tentaram entrar sem pagar, mas os donos do circo chamaram policiais de Bom Sucesso, que levaram os homens presos.

Ao saberem da prisão, outros garimpeiros avisaram que iam promover uma quebradeira no distrito. Boa parte da população fugiu. Quando chegaram ao local, os mineradores invadiram casas, saquearam o comércio, fizeram uma verdadeira baderna.

“Pouco tempo depois, esses homens começaram a morrer do nada. À época, circulava boatos de que as mortes eram por causa de uma praga rogada pelo padre José Duque de Siqueira e muita gente acredita nisso até hoje”, conta Jorginho.

No entanto, registros médicos desfizeram a maldição do padre. Em 1919, a gripe espanhola atingiu a região, em especial Conceição da Barra de Minas e Nazareno, municípios vizinhos à Capelinha. A doença teria sido a verdadeira culpada pela morte dos mineradores.