Comércio de gado… e de gente

5_10_500_375_s_c1_400_300_s_c1
Impactante (imagem da internet)

Por: Messias Natalino Santiago*

Ainda me achava sob o impacto daquele lúgubre espetáculo, a que assisti pela tevê, como, aliás, felizmente, muitos brasileiros o fizeram (estou me referindo à votação do impedimento da Presidente da República na Câmara Federal).  Ainda me achava, repito, sob o impacto das deploráveis cenas oferecidas por nossos deputados quando, poucos dias depois, à noite, aqui em São Tiago, junto com amigos, fui assistir a algo novo para mim, um leilão de gado.  E o mal-estar que, pelo amor do meu país, padecera antes, diante da televisão, voltou ali a me acometer, desta feita pelo amor de São Tiago.

Vamos aos fatos.  Tendo adentrado no recinto do leilão, em que, ressalte-se, não havia controle nem cobrança de ingresso, logo teve início o serviço de alimentação das pessoas presentes, essas em número que folgadamente alcançou a casa das centenas.

Comida farta, repetida quanto se quisesse e de todo gratuita.  Surpreendi-me ante o que via e então refleti: os que aqui se encontram podem pagar; um mar de misérias nos circunda; por que não se cobra a alimentação e se destina o produto à contenção da fome ou a obras sociais quaisquer, sempre tão carentes?

Pouco a seguir, e então boquiaberto, vi que, também à farta, e também de graça, se passou a servir cerveja – e não só cerveja, mas também cachaça, e também uísque (registre-se neste passo que, vindo o garçom à minha mesa, pedi água, respondendo-me ele que esperasse providenciar, porque ali não havia água…).  Leilão regado a álcool, ora, ora… Como isso pode estar acontecendo, perguntei-me?  Não se trata de uma reunião de negócios, a dinheiro?

E prossegui perguntando-me: e como ficam as crianças que aqui se encontram, à solta, sendo que crianças não devem participar de encontros desse caráter, muito menos se feitos à noite, e em hipótese alguma se neles se servem bebidas alcoólicas?

Uma experiência desconsertante (Imagem da internet)
Uma experiência desconsertante (Imagem da internet)

Não bastando o que via, duas horas mais tarde assisti ao pior: fomos todos convidados para, de pé, mãos dadas,… orar.  Isso mesmo: orar.  Pela primeira vez na vida estava eu a integrar uma reunião comercial realizada sob o pálio, de um lado, de preces e, de outro, da malvada, vulgo branquinha.  Deus e o diabo, juntinhos, à mesma mesa (lanço aqui um desafio, a quem quer que seja: apontar a existência de uma só loja em que, precedendo à venda, se convide o cliente a entrar na cachaça e depois rezar).  Finda a piedosa sessão de orações (desse acinte à religião não comunguei; sentado estava, sentado fiquei), decidi-me por ir embora.

Permanecer ali, demais de tudo, seria cumplicidade.  Saí, então, a esta altura já tendo sido iniciados os leilões, apregoados, importa dizer, por indivíduo profissional, em microfone, voz alta e aos borbotões, de sorte, visivelmente, a confundir e precipitar a decisão dos virtuais arrematantes.

A seu tempo, cada rês submetida a venda era introduzida no salão sob luzes e o vozerio do leiloeiro, logo se mostrando ela tomada de estresse, mesmo porque continuamente fustigada por um vaqueiro, que lhe impunha ficar trotando para lá e para cá o tempo todo (nem se precisa lembrar, ademais, que, se se tivesse em conta o respeito ao ciclo diário de vida do gado vacum, o leilão não seria realizado à noite).

Saí, como o disse.  E, saindo, já na estrada, a caminho da cidade, sussurrou-me ao ouvido a Ingenuidade, minha inseparável companheira: já já você vai deparar a polícia, em blitz, completando: em meio a tanta bebida e tantos automóveis, nenhum lugar e hora são mais propícios para os guardiães da ordem se postarem, prontos a flagrar os bebuns.  Qual o quê!  Estrada erma, nenhum policial vi.

Ao cabo, vistos tais fatos, no seu contexto, não me restam dúvidas: trata-se a espécie (comum também a várias outras paragens, segundo consta) de uma suja arquitetura, urdida detalhada e inescrupulosamente para tomar dinheiro a incautos.  Merece franca repulsa.

Desditosa a nação em que coisas assim imperam!  (credo!)

*Messias Natalino é procurador da Justiça aposentado

responsabilidade

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *