*Por: José Antônio Oliveira de Resende

Meu íntimo tempo atrasado (imagem da internet)

Existe um quadro forte do pintor espanhol Goya, no qual Cronos devora seus próprios filhos. Somos filhos do tempo e somos devorados por ele. O tempo não perdoa, ele é insaciável. Onívoro.

Quanto a mim, devo ser um tanto indigesto para o tempo. Ele me devora, mas custa a engolir. Deixo desprender de mim uma espécie de fel. Esse amargo se chama… atraso.

Meu relógio não marca hora e sim segundo, pois sou sempre o segundo a chegar. Já peguei táxi pra correr atrás de ônibus… já cheguei depois da noiva no casamento e eu era padrinho…

No entanto, confesso que ando fazendo algumas coisas para ter uma convivência pacífica com os ponteiros. Houve uma época em que eu andava com o meu relógio vinte minutos adiantado. Mas não funcionou: eu sempre me lembrava de que ele estava vinte minutos na frente. O relógio adiantado foi uma coisa que não adiantou.

Despertador foi uma porção. Eu tinha três deles ao lado da minha cama. O primeiro despertava duas horas antes, o segundo uma hora antes e o terceiro meia hora antes… e eu me levantava meia hora depois. Tive um galo também, o Dedéu. Sozinho e solteirão. Foi só eu arrumar umas duas penosas cacarejantes que o Dedéu criou alma nova e pôs-se a cantar. Mas como viu que seu dono não seguia patavina o horário de seus recitais cocoriqueiros, chutou o balde e passou a cantar quando desse na telha. Até as galinhas estranharam. E esfriaram-se com ele.

Outra artimanha que arrumei foi fazer promessa pra mim mesmo: “se eu chegar atrasado à reunião, eu dou cinquenta reais pra uma instituição de caridade”… “se eu chegar atrasado ao cinema, eu dou cem reais para aquela outra instituição”… Tive que parar com isso, claro. Eu estava me transformando no Benfeitor da Pindaíba, gastando mais dinheiro pra pagar minhas promessas do que pra pagar minhas contas.

Essa minha fidelidade ao atraso vem de longe. Um dia, minha mãe me contou que o meu parto foi com fórceps. Devo ter me atrasado pra sair e então me puxaram pra fora. Se eu fosse soldado, a guerra ideal pra mim seria a Guerra dos Cem Anos, pois eu teria uma boa margem pra chegar ainda a tempo.

Fui atrás do meu amigo Marcus Vinicius de Andrade Peixoto pra conversar com ele sobre o meu problema com o atraso. Marcus Vinicius de Andrade Peixoto é meu amigo filósofo, pesquisador dos ecos abstratos das síncopes do Olodum nas incursões existencialistas de Kierkegaard. Está desenvolvendo, no momento, um artigo onde ele defende a influência do rebolado da música axé nas ataxias do pensamento ocidental.

Marcus Vinicius de Andrade Peixoto me recebeu com aquele seu jeito calmo e mais parado do que ponto final. Nem notou que cheguei atrasado.

Depois que lhe falei do meu problema, meu amigo fechou os olhos e começou a pronunciar vagarosamente as suas frases no fluxo da preguiça:

– Não se queixe de você sempre chegar atrasado. Há uma grande vantagem nisso.

– Vantagem? Qual?

– Como você só chega atrasado, você morrerá atrasado. Vai viver ainda uns minutos a mais.

José Antônio

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