Por trás do que parece uma evolução cultural da teledramaturgia, prevalece a heteronormatividade. O gay afeminado, passivo, domesticado pelo corpo viril do Homem, assim mesmo, com “H” maiúsculo

O culto ao corpo não é novidade. Mas o culto ao corpo heteronormativo levanta a questão do preconceito (Foto: Douglas Caputo)

Ainda me lembro dos tempos de faculdade quando foi pedida à turma uma resenha sobre o filme “Casablanca”, de Michael Curtiz. O longa, de 1942, trazia suspiros de uma mocinha bem ao estilo água-com-açúcar. Numa despedida ainda mais morna ambientada em cidade marroquina homônima ao filme.

Passados 74 anos, o assunto propalado pela imprensa cor-de-rosa durante essa semana foi a primeira cena de sexo gay na TV aberta, que não aconteceu. A não ser pela nudez dos personagens, os cortes de câmera e a edição esconderam os quadros picantes.

De um encontro homoafetivo embalado por uma música melosa, o casal reaparece depois do ato. Além de esconder, o episódio ainda reforça a heteronormatividade. O nobre afeminado na condição de passivo diante do másculo coronel da trama.

Definitivamente, não queríamos ver sexo explícito, mas a cena não aconteceu. Foi como Casablanca, água-com-açúcar. Wagner Moura, que deu vida ao machão “Capitão Nascimento” em “Tropa de Elite”, de José Padilha. Ele reapareceu na grande tela, em “Praia do Futuro”, de Karim Aïnouz, como passivo numa cena transpirante.

Transpirante porque rompe com a ditadura heteronormativa ao colocar o capitão como passivo. Esse não é o caso das revistas voltadas para os públicos LGBTs. O padrão do corpo viril estampa a capa de todas elas. Homens musculosos, fetichizados de testosterona num mundo que cria a ilusão do poder tocar sem poder de fato. É o sexo fácil, barato, sem amor.

E o que dizer do vídeo lançado pela Secretaria de Estado de Direitos Humanos de Minas Gerais nessa semana? Chega a ser deprimente porque tenta realçar a tradicional família mineira, caipira, e sua censura ao menino que nasce corpo errado e retorna ao final como a mulher transexual (veja o vídeo abaixo).

Não levantamos qualquer bandeira que seja. Mas precisamos repensar a forma de inclusão de um grupo, ainda considerado minoria, o que reforça o preconceito. Enquanto houver a ditadura heteronormativa, os LGBTs serão um simulacro de representação social.

Serão representados, mas não por si mesmos, mas por exógenos ao grupo que forjam identidades que não se adequam à realidade vivida pela comunidade livre das amarras de gênero ou sexualidade.

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