Editorial – A fisiologia do impeachment

Não. A morte política de Dilma não foi orgânica, não foi de uma vez só. Foi sistemática, cada órgão foi morrendo aos poucos. Faltaram diálogo, abertura, pulso para controlar a economia e articulação com a base aliada

"Coração Valente" - duplamente abatido (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
“Coração Valente” – duplamente abatido (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Essa quarta-feira (31) vai ficar marcada na história do Brasil. O Senado aprovou o impeachment da presidente Dilma Rousseff por 61 votos favoráveis e 20 contrários. Outro impedimento do Executivo no Brasil ocorreu com Fernando Collor de Mello, em 30 de dezembro de 1992. Já em 1999, uma tentativa frustrada de derrubar Fernando Henrique Cardoso foi arquivada.

Retornando a 1992, no entanto, a questão foi orgânica. A população de cara-pintada tomou as ruas e baniu do poder o presidente que carregava pasta rosa, escândalos de anões do orçamento, homicídio de PC Farias e o oba-oba da Casa da Dinda, tudo de uma vez. Em 2016, o impeachment não foi orgânico, mas sistemático, isoladamente o governo petista foi sofrendo com a falência de cada um dos seus órgãos.

A especificidade do caso Dilma Rousseff tomou contornos com a falta de diálogo com a base aliada. Não por acaso o PMDB, sigla de Michel Temer, empossado no lugar da presidente, rachou com o governo. Os petistas se fecharam cada vez mais e a guilhotina era uma questão de tempo. Mas por que não foi assim com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva?

Várias repostas poderiam aparecer. Mas fica claro que o carisma de Lula com a população mais pobre e o bom desempenho da economia foram um álibi que transformaram o antecessor de Dilma “no cara”, conforme o Executivo norte-americano, Barack Obama. A estrela, não do PT, mas da vedete do PT, ganhou até os telões do cinema, com filme rodado sobre a vida de Lula.  

Quando chegou a hora e a vez dela, não deu para segurar o rojão. As trapalhadas apareciam em discursos, ou melhor, pérolas presidenciáveis, como o imortalizado “eu ‘tô’ saudando a mandioca”. O que aumentava uma opinião pública desfavorável. Junto a isso, a crise econômica foi agravada. Quem havia ascendido socialmente durante o governo Lula, viu-se à volta com a pobreza, um exemplo foi o desastre da propalada “Pátria Educadora”.

Inclui ainda nesse turbilhão de acontecimentos os escândalos de corrupção. O óleo vazou e o caso da Petrobrás com as empreiteiras reforçaram a desconfiança com o Governo, que não soube administrar a crise. Faltou pulso forte, sobrou silêncio. Aonde ia parar isso? Quem seria responsabilizado? Várias cabeças do PT foram sendo guilhotinadas, fisiologicamente, uma a uma. Será que Dilma também seria decepada?

A presidente padeceu ainda com uma rejeição enorme nas urnas, ganhou do senador Aécio Neves (PSDB) por uma diferença de apenas 3% em 2014. “Culpemos, pois, o discurso de perseguição dos golpistas ao governo”. Óbvio, era muito mais fácil jogar a responsabilidade nos perdedores do que assumir o fracasso político, a cova que só ia se aprofundando cada vez mais.

Apesar de parecer um pouco sombrio o processo de impeachment, a sistemática mais uma vez apareceu. Uma dor aqui, outra ali e Dilma não conseguiu articular e credenciar a governabilidade.

Deu no que deu. Hoje, com a democracia das redes sociais, vemos a população exaltada e dividida. A questão é: será que se apelidou algo constitucional de golpe, ou foi um golpe disfarçado de um ato constitucional? No olho do furacão, é impossível dizer. Será dever da história narrar o que realmente houve nesse 31 de agosto de 2016. Mesmo porque, o futuro ainda é incerto.

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