É importante falar, debater e institucionalizar as nuances que colorem o inconsciente coletivo. Quando tivermos consciência dessa ideologia, poderemos desconstruí-la e naturalizar as diferenças que não criam diferentes, mas que apenas reforçam a existência do outro que não sou eu, e que por isso merece respeito   

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“A carne mais barata do mercado é a carne negra” – Elza Soares (Fotos: Douglas Caputo)

Qual a cor da sua consciência? Provavelmente, a resposta mais óbvia é que consciência não tem cor. Mas no substrato do inconsciente, as nuances podem aparecer com força total, aliás, totalitárias. É a ideologia que pinta seu “eu” mais profundo e permite a construção e materialização desses tons por meio do discurso sedimentado nas relações sociais.

Sutilmente, reproduzimos discursos que nos colocam em determinados lugares de fala que são verdadeiros púlpitos de disseminação de poder que, conforme o filósofo francês Michel Foucault, circula por mãos invisíveis, sem que muitos tomem, digamos, consciência do empoderamento que as palavras têm. Exemplos mais variados estão na boca das pessoas.

Vejamos. Quem nunca disse “a coisa ‘tá’ preta”. A expressão afirma que uma situação está ruim. Mas o vocábulo “preta” remete a uma etnia ou raça de pessoas que podem não ter nada a ver com a condição malfadada do sujeito. É a cor do inconsciente coletivo disseminado o preconceito, às claras, mas que não faz diferença para os ouvidos já acostumados com a “ingênua” expressão.

Mais um exemplo? Esse é dos bons. Há um tom solene quando as pessoas proferem o verbo “denegrir”. Palavrinha de dicionário, pomposa. No entanto, sua significação esconde um traiçoeiro sistema ideológico que age no discurso. Denegrir é “tornar negro”. Ora bolas, se você denigre alguém, provavelmente está falando mal, difamando o outro. Inconscientemente, tornando negro o seu desafeto.

Ah, e tal da “inveja branca”?! É uma inveja boa. Boa porque branca. Descolorida da negritude que tornaria o sentimento em algo ruim. O eufemismo só tenta esconder, em vão, mais uma forma politicamente incorreta de se comunicar. O mesmo quando usamos os termos moreninho, escurinho, como se preto ou negro fossem um palavrão que devemos evitar.

Em campanha publicitária do Censo 2010, a atriz Tais Araújo gravou vídeo relatando a necessidade da autoafirmação de sua condição: “a cor da minha pele é preta”. Preta foi a personagem que ela protagonizou na novela global “Da cor do pecado”. Coma assim? Ser preto é pecado? Pode até não ter sido esse o intuito dos autores, mas o efeito de sentido produzido é que uma pele preta representa um vício.

Hoje, 20 de novembro, é o Dia da Nacional Consciência Negra e também o Dia Nacional de Zumbi, escravo que liderou o quilombo de Palmares e lutou contra a segregação racial no Brasil. Sim, aqui a consciência tem cor. Mas vale ressaltar que esse tom não é como outros, velado. Serve para trazer à tona um debate que sociedade ainda precisa enfrentar.

Não fomos, nem estamos preparados para lidar com essas diferenças que partem de iguais. Diferenças que são apenas moleculares, não de caráter. O cadinho cultural brasileiro é formado pela mistura. Se você não for um albino, com certeza não é cem por cento branco. Sua pele pode até parecer branca, mas, geneticamente, você tem “o pé na cozinha”, outra expressão racista.

A evocação, neste dia, é que o debate aconteça. Que as palavras que parecem palavrões sejam ditas. Que a consciência tenha cores variadas. É preciso falar sobre o assunto. É preciso gerar discursos sem eufemismos. Quando a palavra assume uma posição, ela deixa de ser velada. Ela legitima uma condição, reconhece como verdadeiro a posição do outro. Nem o duplo refletido no espelho é o “eu”, mas uma representação construída sobre mim.

Antes de quebrar o preconceito, é preciso aceitar que ele existe, mesmo que forma velada, inconsciente. A partir do momento que houver essa consciência, aí sim, é possível trabalhar a desconstrução dos discursos de empoderamento do ‘branco’. O não-branco não precisa de sua piedade nem de seus eufemismos, mas que seja reconhecido como membro legítimo da comunidade e não um estrangeiro, um estranho dentro de uma sociedade que sim, é marcada por diversas formas de preconceito.

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