Editorial – Mídia e Política ou ligações perigosas

A semana foi de intensa cobertura de convenções municipais dos partidos de São Tiago. A política precisa dar visibilidade aos seus atos como a mídia precisa da política para fazer saber. Um campo não vive sem o outro

A estratégia que deu certo. O palhaço adapta seu discurso à mídia é um fenômeno (imagem da internet)
A estratégia que deu certo. O palhaço adapta seu discurso à mídia e vira um fenômeno  na conquista de votos (imagem da internet)

No Brasil, os estudos sobre a interface mídia e política, que surgiram a partir da abertura à ‘democracia’ na década de 1980, trouxeram um painel que cuida das relações entre poder político e mídia, tendo se intensificado, principalmente, a partir da eleição de Fernando Collor de Mello (PRN) à Presidência da República em 1989.

A mídia trouxe novas formas de visibilidade e de interação. Se antes as decisões eram mantidas em sigilo; com os meios de comunicação, as zonas de invisibilidade tendem a ficar cada vez mais escassas, já que há uma publicização da esfera política pelos meios de comunicação.  

No passado, prevalecia a interação face a face entre políticos e o público. Hoje, isso se dá de forma mediada, haja vista a contratação de profissionais especializados (marqueteiros e assessores de imprensa) que buscam administrar a visibilidade e ajustar a imagem do político às exigências da opinião pública e à gramática midiática.

Mas a mídia trouxe uma situação paradoxal para os líderes políticos. Apesar de aumentar a visibilidade, no ensejo da aparição pública, os candidatos ou governantes correm o risco de cometerem deslizes que podem ser desastrosos. Desvios como gafe e acessos explosivos, desempenho de efeito contrário, vazamento e escândalos podem definir constantemente a morte eleitoral do indivíduo.

Nesse novo contexto, a mídia passou a ocupar uma posição de destaque. Isso porque transferiu-se para os meios de comunicação a responsabilidade de tornar visíveis as ações localizadas nos bastidores do poder, nos gabinetes fechados dos administradores da coisa pública.

Mas, para a política figurar entre os itens que fazem parte da agenda dos media, foi necessário que ela adaptasse seu modus operandi ao discurso midiático, passando por um efeito de dramatização da política, uma teatralização para ser vista. Diferentemente de uma conversa entre correligionários de partido em uma sala fechada.  

Nas sociedades contemporâneas, é evidente a centralidade da mídia para a realização da política. Os atores políticos precisam se adequar à lógica midiática a partir de duas premissas: numa democracia de massas, não há como se estabelecer a relação dos candidatos e governantes com o público sem o uso da mídia e, em segundo lugar, há uma demanda cognitiva por parte dos indivíduos sobre o atual estado do mundo, o qual a mídia supre por ser uma fonte rica de informação.

Os meios de comunicação são atores políticos porque interferem nas relações de poder e hoje ocupam, muitas vezes, o papel dos partidos políticos ao agendar temas e definir o rumo das campanhas, entre outros atributos. Por isso, a expressão “democracia de público”, não mais centrada nos partidos, mas nos líderes personalistas e sua performance midiática.

Ao refletir sobre a interação dos campos midiático e político, portanto, há que se observar que ocorre uma simbiose, ou seja, ambos são constitutivos. A política não ocorre sem a mídia e a mídia se apropria da política para referendar seu papel de ator social. É nesse cenário que o fazer político e o fazer midiático se intersectam numa relação que não mais permite dizer quem é quem.

É nesse sentido que candidatos e governantes precisam estar abertos para a aparição social pelos meios de comunicação. O governante de gabinete não funciona, porque a sociedade democrática quer transparência, quer ser informada. Ao mesmo tempo, cabe à mídia ter responsabilidade com os acontecimentos que transforma em notícia. Não vale-tudo, mas não vale-nada ignorar que os dois campos são constitutivos de si próprios.

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