Escola sem Partido em tempos de ‘Cabresto Bíblico’

“O ambiente da escola é propício para o surgimento de mudanças” (Imagem da internet)

Por: Eduardo Iandê Castro e Resende*

“Toda opinião é política, inclusive a escola sem partido. A demonização da política é a pior herança dessa ditadura militar, que além de matar seres humanos, ainda provocou na educação um dano que vai se arrastar por mais algumas décadas” (Leandro Karnal, historiador e professor da UNICAMP, em entrevista ao Programa Roda Viva)

Sob o título ‘Programa Escola Sem Partido’, o Projeto de Lei do Senado 193/2016 pretende incluir nas diretrizes e bases da educação nacional suposta “neutralidade política, ideológica e religiosa do Estado”. E ainda veda “especialmente, a aplicação dos postulados da teoria ou ideologia de gênero”.

O projeto se fundamenta em suposta doutrinação política promovida por alguns professores em salas de aula. Em consulta pública no site do Senado, a votação sobre o tema está acirrada: são 178.515 votos a favor do projeto contra 187.564 votos contra. Pois bem.

São notórias algumas características do nosso cenário político. Primeiramente, a existência de uma bancada congressista cada vez mais associada ao poder das entidades evangélicas. Isso gera, inevitavelmente, confusão entre o que é ética e o que é moral religiosa, que não são de forma alguma sinônimas.

Ainda, temos a tentativa de se evitar tensões políticas acirradas, de modo que tudo continue em “ordem”, ou seja: políticos eleitos pelo poder econômico e influência religiosa. Vivemos, por isso, em tempos do que posso chamar de “cabresto bíblico”: um grande e organizado movimento que visa vincular as decisões políticas aos ideais conservadores, ou ideais religiosos. Isso sim pode ser considerado um processo de doutrinação sem precedentes e é observado, dentre outras formas, em diversas gravações de cultos religiosos disponíveis na internet. Uma delas com a participação especial de Eduardo Cunha, em época de campanha política (veja o vídeo abaixo).

Os grandes meios de comunicação têm linhas editoriais bem definidas, distantes, por óbvio, da neutralidade. Alguns médicos, inclusive contratados pelo SUS, manifestam seu posicionamento partidário durante consultas, o que já presenciei. Nada disso é combatido pelos defensores da escola sem partido. Porque não querem neutralidade, de fato (até porque ela não existe). Querem, na verdade, que a ideologia conservadora não seja afetada por ideologias progressistas, mais questionadoras do modo como os políticos são eleitos e como (não) representam os desejos da população em geral e minorias oprimidas. Hoje, o jogo é extremamente favorável aqueles que lá estão, até mesmo com mandatos que passam de pai para filho, dadas algumas características do processo eleitoral no país.

Lembro certa vez, quando aluno de um tradicional colégio católico de São João del Rei, da fala de um dos professores: “As notas das provas deveriam ter sido assinadas à lápis, assim como deveria ter sido feito na Lei Áurea, para o caso de decidirmos voltar atrás em tudo isso”. Verdadeira apologia à discriminação racial, em plena sala de aula. Isso sim deve ser duramente combatido, porque constitui crime. Vai contra a igualdade entre todos os brasileiros, prevista na Constituição de 1988 e legislação afim.

Mas é desse tipo de abuso dos professores que trata o projeto de lei. Com ele, querem acabar com a chance de contestação política promovida pelo conhecimento. O ambiente da escola é propício, por si só, para o surgimento de mudanças. Nele se pode refletir sobre o que vai bem e o que deve ser urgentemente mudado. E o professor tem papel de protagonista nesse processo. E isso não exclui o protagonismo também do aluno. Quanto mais instigado, mais aprenderá a refletir, inclusive questionando o próprio professor. E se não se pode refletir na escola, como se poderá refletir sobre uma notícia maliciosamente construída por um grande meio de comunicação ou, ainda, sobre a propaganda política que às vezes é feita por oportunistas em pleno culto religioso? 

Iandê

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