God? (Imagem da internet)
God? (Imagem da internet)

A peça “Esperando Godot”, do irlandês Samuel Beckett”, talvez seja o maior expoente do Teatro do Absurdo. Nesse estilo, tudo é possível e a falta de lógica não é um problema, pelo contrário. Quanto mais no sense, tanto melhor

Para quem não conhece o texto, um resumo relâmpago. Dois sujeitos numa estrada, debatendo nada com nada, à espera de Godot, que nunca aparece, nunca passa pelo caminho dos dois desvairados.

Estudiosos do Teatro do Absurdo chegaram a afirmar que Godot seria um trocadilho da palavra inglesa God, em português, Deus. Estariam as personagens à espera de Deus, ou coisa que o valha.

Parece que em Brasília, as coisas estão nesse pé. Uma confusão geral e só Godot mesmo para resolver o imbróglio político do impedimento da presidente Dilma Rousseff. O Teatro do Absurdo é no Planalto Central.

Esse absurdo estaria contido numa palavrinha da moda: democracia. Apesar do conceito de democracia remeter à isonomia dos cidadãos, há níveis de desigualdades que marcam um estado democrático representativo.

Alguém vai pagar o pato (Imagem da internet)
Alguém vai pagar o pato (Imagem da internet)

Exemplo disso foi a insatisfação instantânea à reeleição de Dilma. Com 51,64% dos votos, segundo contagem do TSE, a presidente foi eleita. Mas para 48,36% da população ela não era a candidata escolhida.

Os derrotados aproveitaram essa rejeição para fazer barulho e conseguir, a duras pedaladas, instaurar o processo de impeachment do executivo.

A taxa dos insatisfeitos deixou-se levar pela onda, e eles acabaram representados por aqueles deveriam representá-los.

Isso criou as bases para a impossibilidade de uma democracia plena. Plenitude que nem seria alcançada com aquilo que o cientista político americano, Robert Dahl, denominou de “poliarquia”.

A poliarquia seria um estágio mais avançado que a democracia. Na visão de Dahl, esse modelo permite a livre contestação pública, a livre concorrência pelo poder e participação plena sem discriminações identitárias. Tudo bem que isso existe no Brasil, no entanto parece artificial.

Contestamos, mas aparelhados pelos partidos. Nossa livre concorrência é limitadíssima. Afinal, quem de nós mortais, poderia se candidatar e conseguir uma vitória nas urnas como o fazem os grandes medalhões?

Uma causa para isso estaria na formação histórica brasileira. Três segmentos controlam a política nacional e transformam os demais eleitores em audiência passiva.

De geração em geração (imagem da internet)
De geração em geração (imagem da internet)

A burocracia estatal, as forças armadas e a intelectualidade constituíram-se enquanto identidade coletiva antes que a ideologia liberal se tornasse valor de disputa eleitoral. Surgiram as estrelas políticas e pouco valor se deu ao debate partidário.

Isso significa que a democracia brasileira foi fortemente influenciada pelo tom personalista da escolha dos cargos eletivos.

A ideologia partidária não foi nutrida, os atores ocuparam a cena pública, antes mesmo de os partidos ganharem força.

Sob a tutela do Estado, engendrou-se um corporativismo predatório na ocupação dos cargos representativos. “Tenho de fazer meu candidato”, diria um político sabido.

A engenharia política utilizada para viabilizar a incorporação de importantes segmentos sociais (empresários e trabalhadores) foi a política social e trabalhista concretizada através do aparato estatal. Isso resultou numa luta de classe e não no debate em torno das ideologias partidárias.

É isso novamente que se vê em Brasília. Não há luta ideológica, mas a elite golpista, coxinha, e o zé povinho, das bolas, digladiando por interesses alheios aos seus.

Talvez, por conta dessa luta de classe o cenário seja tão instável. Não importa quem está no poder, mas os usos e gratificações que serão feitos e obtidos por meio daqueles os quais podem trazer mais benefícios para individualidade do que para a coletividade.

Saudemos a democracia. Talvez, daqui muito tempo, vamos brindar a poliarquia. Habemus impeachment.

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