Desbocado e com posições polêmicas, Gullar foi “ator e personagem” da cultura brasileira. Morre ao 86, mas suas ideias continuam a flanar por aí, principalmente entre o meio intelectual

"Em face da imprevisibilidade da vida, inventamos Deus, que nos protege da bala perdida" (Renato Cobucci /Imprensa- MG)
“Em face da imprevisibilidade da vida, inventamos Deus, que nos protege da bala perdida” (Renato Cobucci /Imprensa- MG)

O “Copo Sujo” (1975) ficou limpo. O livro mais conhecido de Ferreira Gullar traz muito do gênio do artista: uma linguagem ácida, sem medo das palavras de baixo calão e a força daquilo que as lembranças imundas da Terra Natal, São Luís (MA), aparecem-lhe à memória, reconstruídas do exílio na Argentina, durante a Ditadura Militar no Brasil.

O imortal que morreu nesse domingo (04), por conta de uma pneumonia, relutou durante anos uma vaga entre os notáveis da Academia Brasileira de Letras (ABL). Mas foi vencido em 2004. Passou a ser o sétimo escritor a ocupar a cadeira 37 da instituição. Com direito a fardão que impunha respeito à fisionomia esquálida, quixotesca de Gullar, que morreu com 86 anos.

Apesar de membro frequente da ABL, havia parado de escrever poesia. Desde 2009, nenhum um verso publicado. Em entrevista a André Bernardo, revista Metáfora ano 1 – nº 7, Gullar afirmou que para escrever poemas era preciso o insólito, aquilo que lhe perturbasse a mente.

“É aí que entra o espanto. Se algo não me espanta, surpreende ou atordoa, não vou conseguir fazer poesia. Quando você escreve, tem diante de si uma página em branco (…) Escrever poesia é uma coisa meio mágica. É uma relação de acaso e necessidade. Fazer poesia é tornar o acaso necessário. E tornar o possível, realidade”, refletiu Gullar.

Nem por isso deixou de produzir. Artista plástico, coautor de novelas, dramaturgo, tradutor, Gullar também colecionava depoimentos engajados sobre a política do Brasil. No canal do YouTube “Ficha Social”, do dia 15 de fevereiro de 2015, Gullar decretou que Lula é autoritário, que quer calar a imprensa e que o próprio presidente deseja implementar um Estado que não é condizente com o Brasil (veja abaixo).

Sem dúvida, o Brasil perdeu um grande intelectual contemporâneo. Mas como imortal que era, seus pensamentos vão continuar a produzir frutos e influenciar não só novos poetas, mas aqueles que de alguma forma usam a arte em geral como movimento catártico, libertador dos males que atingem a qualquer tempo a humanidade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *