Balanço do ano: Funk é o vencedor da cena “cultural” brasileira

BISCOITO FINO

“A massa ainda comerá do biscoito fino que eu produzo

Oswald de Andrade

Por: Simone de Antonio*

vai_malandra_anitta
“Vai Malandra,tutudum”

Anitta lançou um novo clip que, mesmo que você não queira assistir, em algum momento, ele vai “cair” sobre você. Se você não gosta de Anitta saiba que ela é a mulher mais importante do ano na área cultural brasileira e já está fazendo carreira internacional.

Pabllo Vittar, apesar de ter emplacado o prêmio de melhor música do ano na Globo, dado pelo Faustão, com K.O. (eu também não sei o que essa sigla significa), perdeu o “título”, porque, bem, Pabllo não é exatamente uma mulher, embora ela goste de homens, ainda tem gogó, bunda chapada de homem, e não tem celulite, então…

Anitta se pronunciou dizendo que o ano de 2017 foi maravilhoso pra ela com muitos progressos, no que está certa. Cantou com Pabllo, cantou com a australiana Iggy Azalea, e cantou com mais alguns que fazem clips de primeiro mundo e música mascarada, mercadológica e prostituída dos quintos dos infernos, exatamente o que o povo gosta e consome. Sem falar que conseguiu emplacar entre os 50 primeiros lugares do mundo todo esse “hit”, que se chama, gloriosamente, com muito orgulho: “Vai, malandra”.

funk-vence-cena-cultural-brasileira
Indústria fonográfica celebra produção em série

Um dia ela vai cantar com Beyoncé, a diva atual da música americana, o que parece ser o sonho de consumo dela, já que vive imitando Beyoncé por aí. Eu não me atrevo a dizer que não, porque a humanidade caminha exatamente para o fim do mundo. E, se o fundador do Rock in Rio, Roberto Medina, virou o nariz pra ela neste ano, Anitta já está confirmada na próxima edição, inclusive na versão de Lisboa. O que é um prêmio de reconhecimento, como se ela fizesse boa música…

Numa situação dessas, o nome “Rock”, ligado ao evento, fica até ameaçado, sinceramente. Como Medina já encheu as “fuças” de dinheiro e está se lixando pra esses detalhes puristas, nada vai acontecer e o Rock in Rio simplesmente passará a ser um evento mais “democrático”, porque no Brasil o que vale na área cultural é a grana e o coro dos contentes.

O que me espanta em Anitta são suas contradições: ela é simpática, empresária competente, brejeira e, ao invés de usar isso sutilmente a seu favor, e ao nosso (porque somos brasileiros e queremos que Anitta nos represente bem, leia-se), ela esculacha, vulgariza, flerta com o mau gosto e presta um desserviço à cultura…

funk-vence-cena-cultural-brasileira
Estereótipos reproduzidos pela Indústria Cultural

Ela chegou a fazer vídeos cantando razoavelmente bem (embora em inglês), fez uma parceria que ficou bonita com Vitin em “Cravo e Canela” (que ninguém viu, por que será?) mostrando que pode fazer música brasileira de qualidade e ser a cantora que esperamos que ela seja, mas voltou às raízes do mau gosto (é isso que vende) e resolveu nos brindar como a rainha da favela e dizer que “tem orgulho da sua cultura…”

Que cultura?  Isso não é cultura, isso é subcultura. O Funk é a maior falácia cultural que vivemos atualmente no Brasil. E o mal que ele provoca é incomensurável…

E, pasmem, existem doutores, mestres, pós-doutores, pós-pós-doutores etc., defendendo essa subcultura, com um argumento único (nunca vi nenhum outro):  o de que ele é a expressão popular, legítima e genuína das favelas, como o Samba o era na época da malandragem e tudo mais.

Não é a mesma coisa. E o Funk, longe de ser a única expressão cultural das favelas, funciona mais como um bandido, um ladrão mercadológico que rouba e sufoca a expressão cultural verdadeira das favelas ou a que elas poderiam vir a ter, a ser, a criar. Portanto, o Funk é silenciador de consciências verdadeiras da “expressão dos pobres e oprimidos”, que nesse caso, são oprimidos mesmo. Imagina ouvir só isso desde que nasce até morrer? Opressão pura. Lavagem cerebral.

Quem disse que os “favelados” querem ouvir só Funk? Ou fazer só Funk?

funk-vence-cena-cultural-brasileira
“Ordem e Progresso, sua bunda é um sucesso, nádegas a declarar”

Tenho alunos que moram nas comunidades e muitos são rockeiros, gostam de MPB, de Tim Maia, estão antenados com músicas modernas Pop do mundo todo. Alguns conhecem Villa Lobos e outros são sambistas que conhecem Noel Rosa, Cartola etc. Alguns fazem raps com conteúdo social, samba de tradição. Conheceram música através de seus pais, de seus avós, da internet ou de professores de música bem intencionados ou outros professores, amigos.

O mundo não gira ao redor do Funk para eles que estão lá nessas comunidades e nem sentem que aquilo seja “a expressão da sua cultura”, muito pelo contrário. Eles pensam em outras coisas além do universo funkeiro que só fala de sexo, bundas e mais sexo e bundas…e sexo e bundas…esqueci alguma coisa!?!?!

Ah, acho que esqueci: esse é o Funk de Anitta, bem leve. Algo cor de rosa. Quase cheirando a flores, mas, falemos do Funk batidão pesado: o da polícia, do “é nóis”, do banditismo, das drogas, do estupro, da língua portuguesa ultrajada…

Tá faltando alguma coisa?

Isso me demandaria horas e horas de argumentos inúteis, porque quem gosta de “Funk” (Funk, na verdade nem é isso, é algo bem melhor, mas essa é outra discussão) nunca vai aceitar nenhum desses argumentos. O único argumento a que eles se apegam, é aquele que eu falei ali em cima. E nós somos obrigados a ouvir essa “pérola cultural” de Anitta, não só nós, como os “pobres e oprimidos” da favela:

Vai, malandra, an an / Ê, tá louca, tu brincando com o bumbum / An an, tutudum, an an / Vai, malandra, an an / Ê, tá louca, tu brincando com o bumbum / An an, tutudum, an na

Ou de Valesca Popozuda, em “Agora virei puta”, uma pérola já antiga, mas bem emblemática do Funk:

Só me dava porrada! / E partia pra farra! / Eu ficava sozinha, esperando você / Eu gritava e chorava que nem uma maluca… / Valeu muito obrigado mas agora virei puta! / Valeu muito obrigado mas virei Puta! / Valeu muito obrigado-gado-gado… / se-se-se-se-se-se-se-se um tapinha não dói.. / eu-eu-eu-eu-eu-eu-eu-eu falo pra você… / segura esse chifre quero ver tu se foder!

E a mesma Valeska em “Late que eu tô passando”:

Late, late.. late que eu to passando vai / Late, late.. da patinha, vai vem! / Late, late.. late que eu to passando vai / Late, late…

Um primor…

Ou de Tati Quebra Barraco, em “Boladona”:

Sou cachorra sou gatinha não adianta se esquivar / vou soltar a minha fera eu boto o bicho pra pegar

É pouco?

baile-funk
“I Love Baile Funk” – MC Sapão

Com a “cachorra” institucionalizada na sociedade, ainda se espantam de que as mulheres não sejam valorizadas. Mas, essas “cantoras” são símbolos, para o feminismo, de emancipação. Ele as enxergam como uma afirmação de sua bandeira de luta.  Eu fico besta, acho que está a me faltar um neurônio…

A Carta Capital publicou artigo de um criminalista, Nilo Batista, indignado com o fato de que o baile funk carioca, para ser realizado, necessita de tanta burocracia, que se torna quase inviável de acontecer.

Por que será que o baile funk necessita de todo esse aparato? Essa é a pergunta que ele deveria fazer e não ficar indignado…

Queria saber o que esse doutor acha da qualidade da música de Anitta. Mas, sobre isso, ele silencia. Elementar, meu caro Watson…

elvis-presley-rebola-quadril
Elvis e a rebolada de quadril

Veja bem, quero deixar claro que não sou contra gemidos, simulações de sexo e tudo o mais na música. Aliás, o Rock é cheio disso, lembrem-se de Elvis Presley. No caso dele, a elegância era tão grande que bastava uma reboladinha de quadril.

Embora alguns se aproveitem disso para dizer que Elvis também chocou as consciências de seu tempo, eu já me adianto dizendo: “Não, senhores, Elvis fazia música na melhor tradição do gospel, do blues, country e folk.  Sua bagagem musical era enorme, lembremo-nos que ele nasceu em pleno Mississipi, onde a música negra americana deu origem ao Blues.  E, last but no least, ele tinha um vozeirão.”

E, além de tudo, o Rock sempre chocou as consciências, mas musicalmente o Rock está a anos luz da batida funkeira primitiva chamada de “genial”, pela cantora Fernanda Abreu.

Em um documentário, depois de afirmar que o Funk era dono de uma sonoridade “genial” e tornar-se uma das divulgadoras legítimas dele entre a suposta “elite cultural” (que na verdade não existe mais no Brasil), Fernandinha disse:

Acontecia uma coisa terrível e era culpa do Funk, tudo era culpa do Funk…acontecia um assalto e era culpa do Funk; um arrastão, era culpa do Funk e isso e aquilo era culpa do Funk…

Se era culpa do Funk, eu não sei, só sei que Fernanda Abreu não está autorizada a falar do que é o estrago dessa cultura funkeira entre adolescentes. Jogue-a um mês dando aulas (de Língua Portuguesa!) na baixada carioca com adolescentes “educados” pela cultura funkeira e eu aposto que ela vai mudar o modo de pensar em dois minutos.

funk-feminismo
Can we do it?

Taí uma boa educação musical: torturar alguém com o tipo de música que ele chama de “genial”…

O fato é que Anitta depois de subir numa moto com a bunda e as celulites todas de fora, com comentários no clip: “olha lá a bundinha” e tudo o mais dos valentões machos parados na frente da favela, ofendeu as feministas de plantão. É de matar de rir, se não fosse um pouco triste.

(Eu não sei se sobra algum raciocínio nessas feministas…)

A cachorra do funk

funk-so-cachorras-preparadas
“Só as cachorras”

Uma colunista da Folha, Mariliz Pereira Jorge, assinalou que Anitta “incomoda por não se preocupar com ninguém”. Numa escrita enaltecedora da “independência” de Anitta, a cantora só estaria representando uma “personagem”, mostrando exatamente o que acontece nas favelas, “sem exaltação nenhuma da objetificação das mulheres”, simplesmente mostrando “a vida como ela é”. E, para mostrar tudo isso, obviamente, ela “encarna a cachorra do Funk”.

Bom, não podia faltar a cachorra, claro. Nós entendemos isso. As feministas fazem questão da personagem cachorrona…

Dizer que não houve “exaltação da objetificação das mulheres” no clip não é exatamente verdade. O que mais precisaria naquelas cenas para significar uma exaltação? Tudo é explícito, num nível de enfrentamento total, glorificando o corpo sem deixar espaço para mais nada.

vai-malandra-hit
Top hit do Verão?

Anitta é um gênio das finanças mesmo: enquanto engorda sua conta bancária, consegue ser feminista e machista ao mesmo tempo.

Eu aqui me importo com a questão musical, pura e simples. É isso o que me interessa.  Para mim, tanto faz que as feministas se estapeiem para decidir se Anitta lhes representa ou não. Anitta quer vender. Dona Mariliz Pereira Jorge também parece ser fã de Funk, pois diz no final do seu artigo:

“Um detalhe, só um, sobre o qual quase ninguém falou – a música. É muito boa. Já é o hit do verão”

Bom, eu só não sei em que mundo a senhora vive, porque aqui no meu mundinho e de meus amigos, muitos dentre eles, músicos, não chamamos aquilo de “hit”. Não precisa ser um Beethoven para ver que aquilo sequer é música, é um engodo, que a senhora e outros engolem como pílula a seco.

johnny-hooker-liniker
Música que Flutua (Johnny Hooker à esq.)

O que resta é o aplauso da música em nome de grupos e representações. Por isso, como apontou Dona Mariliz, ninguém falou da música por si mesma. As pessoas se interessam hoje pelo que os cantores representam e não pela música propriamente dita. No caso de Anitta, ela representaria a favela; no caso de Pablo Vittar, os travestis etc.

Nesse último caso, por que eles não escutam Liniker, por exemplo? Ele também é homossexual e se veste de mulher, às vezes. Ou seja, é um travesti, já que isso é tão importante para essas pessoas e não a música por si mesma. Junto com Johnny Hooker, ele gravou “Flutua”, um blues excelente que fala por si só.  E, além dele, existe muita coisa boa totalmente desconhecida na música brasileira atual, que não chega nunca ao grande público…

secos-e-molhados
Corujas, pirilampos, sacis e fadas

Quão longe isso ficou de Ney Matogrosso, por exemplo, que no meio da ditadura surgiu com um personagem sensacional no grupo Secos e Molhados, criando músicas inesquecíveis, poéticas, atrevidas, com bom gosto e qualidade artística, que todo mundo cantava e conhecia muito bem.

E, a não ser para uma pequena parte dos conservadores da ditadura, ninguém nunca se incomodou com as vestimentas exóticas, nem com a sexualidade dos Secos, que foram plenamente absorvidos pela cultura. A diferença é que eles faziam música…

(A propósito Ney era o único bissexual, os outros, eram héteros, se é que isso importa a alguém, deixo aqui como curiosidade.)

the-noite-tati-quebra-barraco
“Ser cantora dá muito trabalho”

Perceba que existe diferença entre fazer música, ou produzir uma coisa que não é bem música, mas que alguns querem que aceitemos como música.

A própria Tati Quebra Barraco deu uma entrevista no “The Noite” dizendo mais ou menos algo como: “o que o Funk faz é juntar uma palavra na outra e, rapidinho dá certo…. agora ser cantor acho que dá muito trabalho, tem que estudar, mas, enfim cada um com seu cada um, eu sou MC não cantora”. Bom, se ela mesma diz que não faz música, quem somos nós pra discordar.

Achei sensacional. Pelo menos se trata de uma mulher sincera que sabe exatamente o que está vendendo…

Bandeiras agonizantes

bandeira-manifestaçao
Antes de tudo, somos pessoas

Mas, agora é assim: a área cultural foi invadida por pessoas que justificam o mau gosto, o baixo nível da produção, o aceitam e o elevam em nome de alguma bandeira social e uma plataforma política. A cultura deixou de existir por ela mesma e com isso, está agonizando. Até virar pó.

Não é necessário erguer uma bandeira de representação de classe na música e na cultura em geral. Mas, no momento em que vivemos, tudo virou bandeira de “classe”, que só existe para dividir as pessoas: “ser transexual”, “ser negro”, “ser mulher”, “ser feminista”, “ser homossexual”, “ser heterossexual” etc. Tudo agora pressupõe que haja uma “classe” e uma representação dessa classe.

Esquecemos que pessoas são pessoas e nada mais!

O que importa é não produzir lixo…

trem-de-ler

Um comentário em “Balanço do ano: Funk é o vencedor da cena “cultural” brasileira

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *