A Zumbilândia chegou pra ficar: os estranhos estão entre nós

BISCOITO FINO

“A massa ainda comerá do biscoito fino que eu produzo

Oswald de Andrade

Simone de Antonio – Rio de Janeiro*

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“Como um objeto não identificado”

Tenho um amigo que é viciado em Ufologia, anda por aí procurando ufos no céu e, num belo dia do ido ano de 2017, teve certeza de ter visto uma nave preta, metalizada, quando estava em frente à Ilha Porchat, em São Vicente, São Paulo.

“Não exatamente em formato de nave”, disse. Mostrou para umas cinco ou seis pessoas e, segundo ele, elas viram o mesmo que ele, mas não acreditaram no que viram, e o olharam como se ele estivesse louco.

Ele concluiu, olhando-me bem nos olhos, muito sério, como se eu fosse uma das poucas pessoas capazes de também ver uma nave espacial e acreditar. “As pessoas estão vivendo uma vida paralela… elas sequer percebem o que está na frente delas”.

Engraçado que essa ideia, se não me fosse dita em relação a ufos, com certeza me pareceria 100% exata. Há qualquer coisa no ar, que faz com que as pessoas não acreditem mais naquilo o que veem. A cegueira impera. Há uma espécie de ‘zumbitificação’ coletiva.

Atualidade da metáfora do rei nu

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Seguimos acreditando naquilo que queremos ver

Para quem não lembra, vou recontar a historinha maravilhosa de Hans Christian Andersen em “A roupa nova do rei”. Era a narrativa de uns cafajestes que confeccionam uma roupa nova para um rei vaidoso que, na verdade, não existia, digo, a roupa não existia, não o rei.

Eles fingiam que costuravam no ar, em um tecido que, segundo eles, só poderia ser visto por pessoas muito inteligentes. Como ninguém, nem o rei nem os ministros queriam parecer idiotas, fingiam que viam o que não viam.

Até que uma criança gritou no meio do desfile em que o rei desfilava com a suposta roupa nova: “O rei está nu”. E a vergonha do soberano foi total.

É exatamente o que acontece no mundo atual em relação a muitas coisas. As pessoas não parecem estar vendo o que está na frente delas e, quando veem, fingem que não acreditam ou simplesmente deixam de pensar naquilo.

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“Guerra dos mundos”

Pensem em qualquer coisa e vejam por si mesmos se não é verdade – as mentiras da mídia, a roubalheira dos “poderosos”, a ilusão de que temos um futuro brilhante sem nos esforçarmos pra isso, as porcarias que consumimos acreditando que precisamos delas e tudo o mais.

Acreditamos, sem pensar, na estabilidade de ideologias parcas e tolas, na pobreza de políticos que nada têm a nos oferecer, nos médicos que nos tratam, nas histórias que nos contam, desde que pareçam verossímeis.

E seguimos, como zumbis, sem saber para onde ir, só indo, sempre em frente, prontos a consumir e a devorar o que quer que esteja pela frente nos sendo oferecido.

Reificação: homens-zumbis

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Zumbi por acaso?

Em 1968, apareceu o já clássico “A noite dos mortos vivos”.  O filme é esquisitão para os padrões de hoje, inclusive em preto e branco. Mas incomoda bastante assisti-lo.

É curioso que, quando acontece o ataque zumbi, à exceção do herói, as vítimas também começam a se mostrar zumbis, antes mesmo de serem atacadas, como a irmã do personagem mostrado inicialmente.

Numa das primeiras cenas, ela vê o irmão sendo devorado e entra em “estado alfa”, diga-se, completamente sem ação e atitude diante das coisas. Como nós mesmos ficamos quando somos assombrados por alguma coisa.

E a sedenta tropa de choque formada pelo batalhão da cidade, entre eles poderosos policias e os outros simplesmente voluntários que não tinham tanta vontade assim de matar, mas precisavam.

Eles atacam os zumbis de uma forma indiscriminada, zumbilesca, atirando pra frente sem verem em quem e, nisso, acabam por liquidar o próprio herói – o único realmente não zumbitizado – num final que param mim, foi, particularmente, muito chocante.

Zumbis: quem são eles?

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Morte e vida ‘zumbirina’

Definamos agora, antes que seja tarde e que essa crônica louca termine, o que é um zumbi: eles são mortos que não sabem que estão mortos, mortos-vivos, dizendo melhor.

Seguem “vivendo” com a morte, devorando os humanos que encontram, procurando pelo cheiro da humanidade, que os alimenta, para que continuem mortos em vida.

O termo se popularizou entre os escravos do Caribe que foram levados para trabalhar nas fazendas de cana-de-açúcar do sul dos Estados Unidos.

Quando William B. Seabrook publicou “A ilha da magia”, um livro sobre hábitos religiosos dos caribenhos, falou dele como um ser enfeitiçado, autômato, pois que a alma lhe tinha sido roubada por um feiticeiro boko, que o reanimava para satisfazer as suas vontades.

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Zumbis por nós mesmos

Já em “O despertar dos mortos” (1978), George A. Romero, o mesmo diretor de “A noite dos mortos vivos”, que seguiu fazendo seus filmes sobre zumbis, aproveita para comunicar que os zumbis não são os outros, quando coloca suas criaturas dentro de um shopping center.

Em busca de carne fresca, segue a humanidade ligada no automático, dilacerada por seus desejos de qualquer coisa: luxo, sexo, dinheiro, pessoas, admiração dos outros, likes…

A carapuça serve?

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Os novos pavlovianos

A sociedade não quer mais o abraço genuíno, o amigo verdadeiro, cheio de defeitos e qualidades como todo amigo de verdade.

Mas lhe interessa as curtidas nas fotos, a quantidade de seguidores, de amigos falsos que aparecem de uma hora pra outra, com discursos de honestidade fingida. Para isso, devotam a sua dedicação firme e desesperada como zumbis em busca de carne fresca.

Não sei vocês, mas já me aconteceu várias vezes estar num lugar e ter a sensação de que sou a única humana que sofre, chora e ri – essas coisas antigas. Quando você reclama atenção, os zumbis te olham com um olhar que te atravessa.

É porque eles não estão te vendo realmente. Geralmente ao celular, eles “conversam” com outros zumbis, que fingem, como eles, que ainda são humanos, sentem emoção e estão vivos.

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Até que a vida os separe

Em “Meu namorado é um zumbi” aparece a humanização do zumbi. O zumbi se apaixona pela humana, de quem (vejam, que legal!), ele já havia comido o namorado dela sem ter culpa, obviamente, já que ele é o que é. Não pôde evitar…

Numa situação dessas, temos um zumbi energizado pela antropofagia praticada com o próprio rival – ele adquiriu a força do outro. E vai conquistar a mocinha ao final também. Rei morto, rei posto.

Brincadeiras à parte, o zumbi em questão percebe que está se tornando humano quando começa a sonhar e outros amigos zumbis começam a sentir os efeitos das memórias e sonhos que vão lhes ensinar, aos poucos, a serem humanos outra vez.

É um filme com uma temática bem interessante, apesar de trash, teen e sessão da tarde com pipoca. Aliás, zumbis são trash por sua própria natureza. O filme vale pela lição contida nele, malgrado todo o mau gosto: a humanidade pode ser ensinada, como uma prática…

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O espetáculo não pode parar, para vivos e mortos

É incrível, mas em tempos de “direitos humanos”, clamados por todos os lugares, a humanidade não está sabendo mais como ser humana.

E, sendo assim, o desfile, o festival sobre filmes e séries de zumbis continuará como na espetacular “The Walking Dead”.  E está longe de acabar, enquanto essa metáfora pairar sobre nós.

Não quero parecer pessimista, mas o fato é que conheço pessoas bem próximas dessa situação de zumbis, que talvez tenham que reaprender, com o tempo, o que é ser humano…

trem-de-ler

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