Identidades sexuais em tempos de fragmentação do ser

 

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Homem ou mulher?

Ivana (Carol Duarte) causou na novela das nove. Homem ou mulher? Para muitos que assistiram “A Força do Querer”, de Glória Perez, o (a) jovem era apenas uma aberração. Uma travesti ao contrário, menina querendo ser menino. Para outros noveleiros, uma lésbica. E para mais alguns, um devasso mesmo.

Mãe de Ivana, Joyce (Maria Fernanda Cândido) representa esse público que ainda não conhece as chamadas identidades pós-modernas, caracterizadas pela fragmentação do sujeito uno em vários outros ao mesmo tempo. Não se habita mais um mesmo corpo, tampouco se comporta de uma única maneira, mas para cada situação, uma máscara social, responsável pela proteção de face.

Mas afinal de contas, quais diferenças existem entre identidades de gênero e orientações sexuais? Aliás, será que para além disso existem outros paradigmas que formatam a construção social do ser humano?

Identidades de gênero

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Roberta Close – pioneira

Esse conceito está conectado ao sexo de indivíduo: masculino e feminino. No entanto, uma revolução nessa dicotomia confundiu a cabeça das pessoas. Já que a diluição do ser uno em vários outros não sepulta mais a alma em um corpo determinado pela genitália biológica.

Os chamados transgêneros passam por uma travessia longa – cheia de sofrimento – e se reconhecem em um corpo estranho. Alienígenas de si mesmos, como dizem alguns.

Apesar de nascidos homens ou mulheres, os transgêneros não conseguem estabelecer uma relação de pertença com o sexo deles. Ou seja, o corpo estranho aprisiona alma e sentimentos  destoantes do organismo rebelde.

Pior, sentem-se aprisionados dentro de uma estrutura física que não os identifica. É o caso de Ivana, que precisa se auto entender e vencer o preconceito/ignorância da mãe numa queda-de-braço. Um problema que muitos ainda enfrentam para que sejam aceitos simplesmente como pessoas.

Homens encarcerados em corpo de mulheres. Mulheres encarceradas em corpo de homens. A claustrofobia chega a tal ponto que é preciso fazer cirurgia de mudança de sexo. Somente assim, eles (as) conseguem se realizar como pessoas plenas. Há casos em que a automutilação é o exercício extremo da liberdade.

Já as travestis, que se aparentam afeminados ou masculinizados, transitam entre os gêneros. Um intergênero que se forma a partir da simbiose entre um corpo masculino e outro feminino e vice-versa.

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Fenômeno

A Pablo Vittar, revelada pela dobradinha com a cantora Anitta e estourada depois do Rock in Rio é o expoente desse tipo. Em participação no programa Encontro Com Fátima Bernardes, disse que adora ser afeminado e não pretende trocar de sexo.

Vittar ainda pontuou a necessidade de se montar, não como uma drag queen, mas com vestimentas e acessórios típicos do gênero oposto. Perguntada por que não reivindicou um nome social, a Pablo respondeu que as duas identidades convivem em harmonia num só corpo.

Já as drags carnavalizam e abusam de cores, plumas e paetês em suas fantasias. É o tipo escrachado, quase indefinido em relação ao perfil sexual, por se tratar de uma fantasia demasiado rebuscada. Não parecem homens nem mulheres, mas ensejam uma carnavalização do que é ser feminino ou masculino.

Orientações sexuais

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Carnavalização

Aqui, cabe a sexualidade dos indivíduos. Trata-se do desejo sexual que as pessoas sentem umas pelas outras. Quando sexos diferentes se atraem, são chamados heterossexuais.

Quando sexos iguais se interessam um pelo outro são chamados de homossexuais, com a subdivisão de gay, para homens, e lésbica, para mulheres.

Por muito tempo a aparição midiática desses sujeitos foi marcada pelo aspecto bizarro, caricato. Os estereótipo do ‘viado’ afeminado e cheio de trejeitos prevalecia nos folhetins.

Quem não se lembra de Crô (Marcello Cerrado) em “Fina Estampa? Mais afetado impossível. O personagem lacrou, mas também gerou polêmica entre os membros do movimento LGBTs.

Isso porque muitos deles não se sentiam representados por “Crô”, personagem criado e interpretado por heterossexuais. Era preciso uma personagem mais perto da realidade. Um gay asséptico e bem-sucedido.

Ele apareceu um ano depois do fim de Fina Estampa. Félix (Mateus Solano) vilão de Amor à Vida (2013-2014) foi se revelando ao longo da trama. Apenas no final do folhetim despiu-se do estereótipo heteronormativo e saiu do armário.

O clímax veio numa cena romântica quando Félix e Niko (Thiago Fragoso) se pegaram diante duma audiência vasta. Embora não tenha sido o primeiro beijo gay da TV, a intensidade da bicota causou frisson e marcou época.

Identidades – pessoas

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Somente pessoas

Fundada em 1972, a companhia Dzi Croquettes foi uma revolução nas identidades de gêneros. Vanguardistas, os membros eram homens fortes, barbados que carregavam na maquiagem e no figurino feminino. A androginia marcou o grupo que misturava teatro, música e dança no palco.

Dirigido por Tatiana Issa e Raphael Alvarez, documentário sobre a trajetória dos Dzi – ligados a contracultura – realça esse perfil indenitário incerto quando o assunto aborda a questão de gênero.

Em um dos depoimentos, uma personagem do filme lembra de algo de extrema relevância sobre identidades e gêneros. As pessoas não entendiam se eram homens, mulheres, gays, travestis. “Nós éramos apenas pessoas”.

Os rótulos começaram a ser questionados com a Teoria Queer, nos anos 1990. Descendente dos Estudos Culturais da década 1960, os Queers seriam os “desviantes”, os transviados que rompem com os paradigmas de identidades e gêneros sexuais.

A abordagem prevê que não existem nem homens nem mulheres em estado de natureza, ambos são construídos socialmente nas relações com seus pares.

É nesse sentido que o Queer classifica como ficcionalização identidades e orientações atribuídas a determinados recortes sociais.

Talvez, quando os indivíduos se tratarem apenas como pessoas, sem a ficção de identidades e orientações, haja mais harmonia e evolução humana do ser.

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