BISCOITO FINO

“A massa ainda comerá do biscoito fino que eu produzo

Oswald de Andrade

Simone de Antonio – Rio de Janeiro*

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A Estudante Russa (Anita Malfatti)

Anita Malfatti era uma jovem feliz e entusiasmada dos anos 20 quando estudava arte nos EUA com o seu guru, o professor Homer Boss, que tinha a liberdade artística como meta principal. Precursora no Brasil da arte expressionista, fez uma exposição em 1917 antes da semana de arte moderna.

Sem compreender uma só gota do que seria mais tarde a revolução vanguardista no Brasil, Monteiro Lobato cumprindo o seu papel de “crítico de arte”, detonou o trabalho de Anita num artigo chamado: “Paranoia ou mistificação?”

“Há duas espécies de artista. Uma composta dos que veem as coisas e em consequência fazem arte pura, guardados os esternos ritmos da vida (…) A outra espécie é formada dos que veem anormalmente a natureza e a interpretam à luz das teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica das escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva” [O Diário de São Paulo, dez/1917].

Anita nunca se recuperou do golpe. A partir dali pintou com muito mais timidez em decorrência de ter dado importância a essa crítica, hoje, sabemos, uma crítica infeliz e até retrógrada.

Assim, enquanto a arte europeia estava a anos luz daquilo que somente se começava a vislumbrar no Brasil, Lobato no seu mundinho de gabinete que não entendia um palmo de artes plásticas, condenava nossa pintora a ser, a partir daí, quase um pastiche de si mesma.

Hoje o trabalho de Anita é muito menos badalado do que o de Tarsila do Amaral, por exemplo, que não foi precursora de nada, mas foi ao mesmo tempo musa e mito do Modernismo e que estimulada por Oswald de Andrade, um dos pais espirituais do movimento, conseguiu pintar com uma liberdade que Anita nunca mais conseguiu ter.

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Abaporu (Tarsila do Amaral)

A liberdade criativa é um bem maior na arte. É essa liberdade que fez Van Gogh, por exemplo, dentre outros, ser quem foi. Artistas só se desenvolvem se forem totalmente livres para criar.

Semana passada inaugurou o Festival de Cinema de Tiradentes (MG), o filme “Café com Canela”. Não assisti ainda ao filme. Ele já tinha ganhado o prêmio do júri no festival de Brasília em 2017, quando foi comparado com o de Daniela Thomas – “Vazante”, um filme que tinha sido também muito aplaudido logo assim que foi exibido.

Mas, tão logo começaram os comentários, ele passou do aplauso à dúvida, rapidamente. Coisa que muito acontece no Brasil, onde as pessoas não pensam a partir do que vivenciam e sentem, mas a partir do que os outros dizem. E do que temem. Porque o medo impera nas consciências atuais.

Alguns presentes ao debate colocaram Daniela numa saia justa e quem se der ao trabalho de ouvir o vídeo disponível no YouTube (são quase duas horas de debate em que não se escuta muito bem, diga-se de passagem), vai ver que Daniela perdeu mesmo toda a sua argumentação para defender o seu filme, quando foi questionada sobre como retratou os negros nele.

Não lhe chamaram de racista. Não foi isso. Apenas disseram que ela colocou os negros em posição subjetiva, sem voz, sem nomes etc. Ela defendeu-se a dizer, entre outras coisas, que o seu filme não era militante e que ela contou sua história a partir do ponto de vista de uma branca, a menina de 12 anos que era obrigada a casar-se com um homem de 48 anos.

Os seus críticos não se deram por vencidos. Daniela, na época, deu algumas entrevistas dizendo não fazer ideia do quanto era acalorada a discussão do preconceito de raça no Brasil e que era inocente em relação a isso.

Obsessões cinematográficas

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Vazante (Daniela Thomas)

Houve críticas um tanto quanto acaloradas por todos os lugares, das escolhas técnicas de Daniela no filme, às escolhas ideológicas.  Não faltam críticas até ao fechamento dos blocos separados por “blacks”, como se isso carregasse uma significação qualquer, por trás.

Também há críticas às opções de Daniela em “mostrar, mostrar”.  As obsessões dela pela “descrição cinematográfica”.

E daí? É o cinema dela , é o que ela faz, é no que ela se identifica. Percebe-se que na tentativa de criticar algo que os incomoda, as pessoas chegam a ser injustas com as escolhas do artista.

A questão aqui é que vivemos um momento delicado de polarizações várias em que artista algum pode escapar ao que acontece no Brasil de hoje e Daniela pagou por isso, por ter ignorado essa questão.  Onde quer que exista alguém com o dedo apontado numa militância, qualquer detalhe da sua mente preconceituosa, culpada e opressora, vai aparecer.

Não adianta dizer que o Brasil não é racista. Não existe racismo reverso, mesmo num país miscigenado como o nosso, uma vez que foram os negros os oprimidos e os brancos, os opressores. Então que isso fique bem claro, não há racismo de negros contra brancos, na prática, nem pode haver, enquanto essa situação terrível de disparidade permanecer.

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Vazante é ambientado em MG, no século 19 (Foto: Ricardo Teles)

Os negros ainda não tem representatividade suficiente em lugar nenhum, dentro das artes. Dia desses fiquei sabendo que só existia, até agora, uma única diretora negra no Brasil (Adélia Sampaio) dentro do cinema e é por essas e outras que a luta contra o racismo continua. E, saibam vocês, está longe de terminar, infelizmente.

O que faltou a Daniela foi o conhecimento dessa questão. Ela chegou a dizer ironicamente que se soubesse o que lhe ensinaram ali, não teria feito o filme.

Numa entrevista ao Huffpost, Daniela disse:

“A questão principal é como tornar possível a convivência entre a qualidade atávica de uma obra de arte – que é a liberdade de criação e independência – e as necessidades que eu acredito e partilho – que dizem respeito à melhora da vida dos negros no Brasil, a representatividade do negro nas artes e na vida cotidiana do País. A convivência entre essas questões não é fácil. Porque as necessidades dessa militância não tem nada a ver com uma obra sutil, que trabalha num diapasão não-militante e que não está em busca de respostas das questões que a militância está colocando no momento. Esse filme não tem como ser pensado a partir desse lugar sem falhar”.

Interrogada sobre a distribuição dos filmes no Brasil, Daniela afirmou:

“Sinto que estou me despedindo do cinema. Me parece que o cinema vai ser cada vez mais uma experiência de quem vai, por exemplo, num parque da Disney.”

É difícil não ver aí um resquício do que lhe aconteceu. Ela parece ter perdido um pouco da sua liberdade criativa. Esmoreceu. Perdeu o entusiasmo.  Como Anita Malfatti, lá no Modernismo.

Cinema de representatividade

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Café com Canela (Glenda Nicácio)

Já a diretora de “Café com Canela”, Glenda Nicácio, disse:

“Acho que é importante entender que você faz um filme para ser assistido, e aí você tem que aguentar o público, tem que dar conta. Não precisa dar conta de todos os pontos de vista, mas tem que entender que o filme trabalha com subjetividades, e a partir disso ele não tem mais freio. Entregou o filme, se dispôs a colocar num festival, aguente. Resolveu mostrar pra alguém, tem que ter estrutura pra segurar. Ao mesmo tempo que foi muito legal a recepção em Brasília, numa circunstância diferente poderia ter sido muito mal recebido. Tem possibilidade disso se você se debruçar sobre o filme para pensar técnica, escolhas; tem várias brechas, vários problemas. No entanto, em Brasília, o público optou por ver a beleza do afeto, dos encontros, gerando um ambiente para o filme que não se perdeu mais”.

Glenda diz, anteriormente, na mesma entrevista:

“O CachoeiraDoc reflete um pouco disso porque é um festival feito por Amaranta Cesar e pela Ana Rosa Marques, que são muito atuais, têm uma reflexão muito forte sobre o que está acontecendo no Brasil, e acho que isso tem um reflexo na curadoria e na forma de construir o festival. Então tem essas duas forças, de uma atualidade, de um entendimento docente, mas também da entrada dos discentes que antes não ocupavam esses espaços – o que acaba gerando essa fricção muito bem-vinda de refletir representatividade, refletir novas histórias, onde estamos, diferenças entre centros e periferias”.

Ora, juntando lé com cré, chegamos à “brilhante” conclusão de que é uma obra de arte e sua representatividade o que está em pauta aqui. E é ela mesma quem continua dizendo:

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Cândido Portinari, o filho de imigrantes que pintou a vida brasileira

Um grande passo é a gente conseguir trazer estas crônicas cotidianas pro afeto, e dar uma liberdade pros artistas em geral de que podemos fazer arte falando de afeto e amor, outras coisas além de temas ligados ao social. Porque também parece que às vezes vira uma prisão, é sempre preciso falar destes assuntos.”

Muito bem dito. Se tudo vira bandeira de carga política e social, onde fica a liberdade artística?

O próprio Monteiro Lobato não teria recepção nenhuma no momento atual com sua consciência branca, “lavada” e que colocou Dona Anastácia na cozinha. O mundo infantil seria poupado do preconceito e da branca Narizinho.

Tive mesmo uma professora negra, militante dos movimentos negros, que não falava de Machado de Assis na sala de aula – o ignorava solenemente – chegou a insinuar que ele era um vendido.  Odiava também Oswald de Andrade – “um traidor” da causa. Obrigava-nos  a ler Carolina de Jesus  sem parar,  enquanto se especializava nos EUA e traduzia escritores ingleses brancos.

Uma pergunta genuína que me coloco é se os militantes acham que a presença negra na arte só deve ser feita por negros e para negros? Como um branco pode, a partir de sua condição de branco opressor que é, pela sua própria natureza culpada, como o são considerados os alemães pelo nazismo, por exemplo, retratar um negro em sua arte?

Essa é uma pergunta que só os negros podem responder. Não vale a resposta se você é um branco, ou mesmo um miscigenado. Você não tem nada com isso. Se você nunca foi parado pela polícia em decorrência da sua cor, não se meta nessa história.

Se somos um país fifty/fifty como já apontam algumas estatísticas extracenso (não sei se verdadeiras ou fictícias), no futuro, vai ter sempre um branco que vai precisar falar de um negro, ou um negro que vai falar de um branco em sua arte e também na vida fora da arte. Tomamos parte da vida uns dos outros. Não tem como andarmos separados.

Considerando que no Brasil quase não existem “brancos” puros, ainda assim, radicalizemos para a pergunta se manter. Como ficarão as suscetibilidades negras e “brancas”?

E os tupiniquins?

No futuro, esse será finalmente um país realmente miscigenado como acreditamos ser e queremos ser ou sempre fomos e não sabemos? Ou um país dividido em guetos, como nos EUA?

E, especificamente com relação à arte, como saber, sendo artista, se você deu o tom exato em sua obra que deveria ter dado segundo esses ou aqueles movimentos existentes na sociedade?

Afinal, para quem o artista constrói sua obra?

trem-de-ler

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