BISCOITO FINO

“A massa ainda comerá do biscoito fino que eu produzo

Oswald de Andrade

Por: Simone de Antonio*

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Três mulheres podem representar um século?

Mulheres do século XX, cujo nome no original é o mesmo (20 th Century Women, 2016) de Mike Mills, mostra logo de cara, que tem um título pra lá de pretensioso. Senão vejamos: o que esperar de um filme com esse nome que mais parece um título apropriado para um documentário que envolvesse uma amostra considerável de mulheres? No mínimo que ele pretenda ser a representação das mulheres, digo, da categoria feminina no século XX, mas como logo vemos, não passa de efeito retórico, já que estamos falando aqui de uma amostra de três mulheres (três!!!!)

Bem, alguns dirão, é a visão particular do cineasta. Correto, concordo e no caso então, seriam essas três mulheres que, segundo ele, representariam uma pequena amostra do imaginário feminino do século XX? Percebem como continua pretensioso?

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O título poderia ser de um documentário

Não há desculpas para um título desses… Estou sendo chata implicando com um título? É desses títulos que nascem o engano das coisas…

O filme pelo menos deveria abarcar mais diversidade, conforme a lógica do politicamente correto. Mas não. São três mulheres brancas, americanas, da classe média, se é que isso representa para o cineasta “a mulher do século XX”.

O século XX, coitado, mal esfriou no túmulo e já estão fazendo representações sobre ele. Como se um século batesse a porta na nossa cara e dissesse: “agora me avaliem, me escrevam, me transformem em papel, em história, em emblema, em símbolo”. E cada um escreve a história particular que bem entender.

Não é bem assim. Ainda vivemos os ecos do século XX, a maioria de nós nasceu no século XX, e não tem porque agir como se falássemos das “Mulheres da idade média”, Mulheres da idade da pedra” ou mesmo “Mulheres da era vitoriana”, indicando algo que ficou bem lá atrás, como se ainda não experimentássemos na nossa própria pele, nos nossos poros, o que foi e ainda é o século XX em nós.

Dito isto, o filme é bom. Gostoso de assistir, embora, ao final deixe um gosto de parecer estar faltando alguma coisa. Annete Benning dá um banho, como sempre. Se é possível que uma atriz melhore a cada cena, esse é o caso de Annete Bening…

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O banho de Annette Bening

E é justamente a sua personagem, a mais carismática. Ela nasceu nos anos 20 e teve seu filho mais tarde, o que a afasta no sentido de compreendê-lo, já que ele é um temporão (e a história se passa lá pelos idos anos 70). Ela pede a ajuda de duas outras mulheres para educá-lo e se aproximar dele: uma fotógrafa que aluga um quarto em sua casa e a outra é a própria amiguinha do filho que vira e mexe pula a janela pra dormir com ele (mas só dormir, literalmente). Aqui a representação dessas mulheres já é bem avançadinha pra época e jamais poderia ser vista como uma representação das mulheres dessa época.

Mulheres reais ou personagens?

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É claro, não podia faltar o feminismo…

Senão, vejamos: Annette Benning é divorciada, trabalha fora, aluga quartos na sua pequena mansão deteriorada e, como é muito autocentrada, independente e confiante, os amigos do trabalho chegam a pensar, erroneamente, que ela fosse lésbica (isso é dito por um deles que a convida para sair). A maioria das mulheres nascidas nos anos 20 não trabalhava fora, dependiam do marido e muito poucas se divorciavam, não tinham aquela independência toda, mas a representação desse cineasta são seres de exceção, como fica claro.

E vamos mais: a ruiva fotógrafa (Greta Gerwig) aluga um quarto na mansão, tem um câncer (benigno) e vai ser a mentora do filho de Annette. E como ela vai fazer isso? Através de livros feministas que ela empresta seguidamente ao filho de Annette para que ele saiba como conquistar as mulheres, segundo ela. Essa personagem, aliás, tem diversos tiques extravagantes como o de chamar friamente, do nada, um homem pra transar com ela. O homem em questão é o personagem assustado de Billy Crudup que aparece na história e mora na mansão, mas nada se sabe dele, porque a história é das mulheres, obviamente, e no ato, ela pede que ele represente um papel que ela lhe dá. A cena é um pouco triste.

E ele diz:
“Eu não posso ser eu mesmo?”

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A rebelde

Não, ele não pode ser ele mesmo, porque ali ele é mero apoio emocional das mulheres. O coitado passa o filme inteiro tomando uma série de fora delas e sendo compreensivo e prestativo, inclusive reformando a mansão. Um galã de plantão, pau pra qualquer obra.

A personagem de Elle Fanning é uma menina mal resolvida, com problemas com a mãe, que resolve transar com muitos meninos diferentes. Há a cena de uma possível gravidez, felizmente não confirmada, porque se o filme descambasse pra questão do aborto, já ia virar uma outra história. Felizmente esse cineasta tem elegância.

Quando é indagada pelo seu amigo de “por que faz isso, se não tem orgasmos?”, ela responde através do alter ego da lente do cineasta (que muitas vezes é invasiva, como um narrador intruso) fazendo um “relatório” dos meninos com fotos e frases poéticas e esteticamente muito bonitas do “porquê fazer sexo”, mostrando que, para as mulheres as razões do sexo vão muito além do orgasmo. Ponto pro filme. Essa cena é, de longe, uma das melhores…

A cena ridícula, ideologicamente falando, é a do adolescente que após ser escolado por um monte de livros feministas dados pela sua amiga, bate num colega, depois de um diálogo risível, que é mais ou menos assim:

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Não sou como todos os homens. Sou apenas eu

– Ontem eu transei com a fulana e ela gozou…

– Como você conseguiu isso? – o nosso herói pergunta.

– Com o meu pau…- diz, simplesmente, o outro.”

E o herói sai na “porrada”, porque, independente da mentira do outro, para um feminista é um verdadeiro insulto, saber que alguém atinge orgasmos dessa maneira tão tosca, sem clitóris…

Se não fosse a mania de Hollywood de fazer apologia disso ou daquilo o tempo todo, eu diria que o filme era excelente, mas como descamba para a pregação ideológica, essa praga, da qual, parece, ninguém que trabalha com arte neste mundo escapa, é apenas um filme bom.

Pena.

trem-de-ler

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