Natal: noite feliz, tempo feliz, pero no mucho…

BISCOITO FINO

“A massa ainda comerá do biscoito fino que eu produzo

Oswald de Andrade

Por: Simone de Antonio*

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Sempre tinha de tudo

Todo Natal lembro um pouco de como eram os meus natais infantis, nem sempre com muita nostalgia, admito. O Natal era um pouco chato. No dia 24, tinha uma ceia com toda família que era bem legal.

Sempre tinha uma criança idiota que corria e ia se esconder debaixo da mesa, puxava a toalha e derrubava, com sorte, o peru – aquela coisa seca, grande, branca, brilhante por cima, como verniz.  Parecia um filme de Woody Allen, infelizmente sem a queda do peru, que essa, só acontecia na minha imaginação.

Sempre tinha um monte de mulheres cozinhando, um monte de homens reclamando, um monte de crianças que não estavam nem aí e continuavam correndo pra lá e pra cá irritando os adultos.

Sempre tinha um tio que brigava com alguém, ou um vizinho e claro, tinha o meu avô português, exagerado, anárquico, que tomava muito vinho e, depois de comer muito bacalhau, começava a cantar Noite Feliz bem alto – mas, só depois do bacalhau. Essa, eu posso dizer que era a parte boa.

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Frustração era mesmo no dia 25

A parte ruim era acordar no dia 25 e descobrir que eu não tinha ganhado o brinquedo que havia pedido. Eu detestava o dia 25. O papai nunca me dava o que eu pedia pelo simples fato de que ele era desses pais que achava um absurdo gastar “rios de dinheiro” numa boneca idiota que anda de bicicleta, por exemplo, no que ele tinha razão, mas, claro, naquela ocasião, eu não podia saber.

E lá ia eu pra calçada de minha rua exibir minha boneca nova que não fazia nada daquilo, perto de alguma menina que ganhou a boneca que eu queria. Era dose.

Os presentes do meu irmão eram mais descolados: naves espaciais que acendiam luz, ambulâncias que faziam barulho, robôs etc. É claro que depois de um tempo eu aprendi a não esperar mais nada desses brinquedos idiotas do Natal.

Agradecia fingindo que amei, ia pra rua brincar no ritual conhecido com as outras crianças, que às vezes estavam tão frustradas quanto eu. E ficávamos lá, fingindo pros adultos que estávamos felizes, doidos para aquilo acabar…

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Presente dos sonhos

Mas a minha Caloi verde, que ganhei no Natal dos 7 anos, redimiu todos os natais anteriores com relação ao quesito “presentes”. Foi de longe, o melhor Natal. A bicicleta era o verdadeiro fetiche da infância e eu sabia que depois dela, só o dilúvio.

Mas, ainda guardo com carinho, até hoje, uma boneca de corda que embala um bebê no colo. Nada lacradora, mas tão linda…e ainda ganhei uns patins mais tarde, negando o que eu tinha pensado sobre a bicicleta ser o melhor presente. Os patins eram o êxtase total!!

Outra parte também muito esquisita era o “Papai Noel”, aquele que eu nunca consegui acreditar. Como uma criança que nasce em Belém, naquele lugar quente, vai conseguir acreditar num velho gordo, barbudo que chega cheio de roupas de veludo vermelho, pingando horrores com um saco de presentes dentro de um trenó de neve, conduzido por renas, aquele bicho que confundíamos com o Bambi da Disney? Sem condições.

Detestava quando a minha mãe me colocava numa fila pra bater foto com o Papai Noel. Eu sempre ficava nervosa quando ia chegando a minha vez. Ainda bem que era rápido e o Papai Noel parecia sempre muito suado e impaciente. Ele nunca tinha cara de quem gostava de crianças…

Engraçado que não sei onde foram parar essas fotos com o Papai Noel. Nunca vi nenhuma. Acho que eu devia ficar com uma cara tão horrível ou chorando, que minha mãe se livrou de todas elas.

Ufa, do Natal ao Réveillon

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Ilusão da família feliz

Ainda bem que chegava o ano novo. Parecia coisa de adulto, mas as pessoas ficavam mais felizes e nós, crianças, podíamos correr em paz por ali, sem ter que comparar nossos brinquedos com ninguém…

O Natal é mesmo um pilar das injustiças. Sempre falta ou sobra alguma coisa. Como uma festa assim pode ser o nascimento de Cristo?

Parece mais uma tortura chinesa algumas vezes, mas, claro, as pessoas se esforçam pra manter um nível de contentamento aceitável. Os adultos, é claro, bebem muito, cozinham muito, comem muito, compram muito…oh, santa felicidade!

O Natal prova que não existe, em lugar nenhum nem nunca existirá uma coisa chamada justiça social. Nem para as crianças bem nascidas que esperam o Papai Noel…

Não adianta apelar. Nada muda a realidade trágica ou cômica das coisas. Pois não, o Natal não é aquela família feliz reunida sem problemas nenhum mostrada pela propaganda lacradora, igualitária, sem preconceito, com um Papai Noel lindo, magro e negro com cara de modelo descendo por uma chaminé…

Ele sempre lembra a coisa demasiado humana que todos temos dentro de nós. Humano, demasiado humano, o Natal é como abrir uma ferida em algum lugar do corpo, você sabe que vai arder e você vai ter que soprar…

Reinvenção do Natal

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Parece o Brasil!

Há muito tempo o Natal tem que ser reinventado. Deve ser dentro dessa proposta que o comércio inventou natais longe de família em resorts, em cruzeiros etc. Nunca gostei dessa ideia, se perto da família parece uma tortura às vezes, imagina com gente estranha?

Parece coisa de gente muito solitária, mas não é, acredite, tem gente que paga e paga caro pra ir junto com a família ou sem ela, e participar do Natal junto a outras famílias, as quais lhe são completos estranhos, dentro de um navio.

“Que coisa mais sinistra”, eu penso! Mas eu sou uma pessoa tradicionalista, não com orgulho. É que eu nasci assim mesmo: defeito de fábrica. Sou dessas que tem que ter rabanada no Natal e avô e avó e mãe e pai e tios…

E, bem, é triste quando não se tem nada disso… (E, devo dizer, nunca parti num cruzeiro de férias, então não tenho a menor noção mesmo!)

Além de tudo, as pessoas morrem e isso é a outra parte triste do Natal. A matriarca, o patriarca, aqueles que uniam todos em volta da mesa e o Natal fica lá, vazio, esperando por outro rei que ocupe aquele trono…

Parece o Brasil!

trem-de-ler

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