No aniversário de 303 anos de São João del-Rei, uma Lady faz história

Não resta dúvida de que o conjunto arquitetônico do centro histórico de SJDR é muito relevante. Mas outros pontos merecem destaque, com a senhora Leite de Castro, apelidada Lady Castro” em documentário que faz um recorte da memória são-joanense

Não sabe o caminho? É só seguir a Leite de Castro (Google Street View)
Não sabe o caminho? É só seguir a Leite de Castro (Google Street View)

Os sinos dobram festivos nos campanários das igrejas seculares de São João del-Rei. Não sem motivo, nesta quinta-feira (08), a cidade completa 303 anos e coleciona registros de um Brasil que passava pelo processo de urbanização.

O décor barroco do centro histórico continua pulsante entre turistas que visitam a cidade todos os anos para um encontro marcado com o passado. Eles caminham por ruas de pedra sabão e param, contemplativos ou num frenesi de cliques fotográficos, diante do patrimônio material e imaterial ambientado em São João del-Rei.

São João del-Rei, aliás, que não é só dos cartões postais como a Maria-Fumaça que serpenteia por trilhos até a vizinha Tiradentes. A cidade tem memórias que não estão nos pacotes de viagem, mas que partem das lembranças de moradores de diversos pontos do município.

Essa cidade escondida dos visitantes chamou a atenção de dois jornalistas. Então graduandos do curso de Comunicação Social da UFSJ, Léo Rigotto e Pedro Carozzi, cultivaram o olhar para o cotidiano dos moradores e descobriram uma Lady entre eles, a Av. Leite de Castro.

Lady Castro”, nome que intitula o documentário (veja abaixo) do trabalho de final de curso dos dois jornalistas, em meados de 2014, mostra o lado ocultado pelo cenário midiático das igrejas, casarios e ruas coloniais. Revela uma Vertente das Gerais que só tem sentimento de pertença por quem perpassam as identidades são-joanenses.

“Apesar de ser histórica, a cidade tem esse lado ‘normal’, mais moderno, mas que também tem sua parcela histórica. Queríamos retratar algo que normalmente não é foco dos meios de comunicação, uma avenida comum em uma cidade que atrai turistas por ter atributos ‘incomuns’”, reflete Rigotto.

Orientados pelo professor Jairo Faria Mendes, os então estudantes navegaram pela chamada cultura da mineiridade que circula, quase invisível, por uma das principais ruas de São João del-Rei. Foi por meio de diferentes tipos que ‘habitam’ a Leite de Castro que a narrativa do documentário foi produzida.

“Acho que os personagens trouxeram uma relação muito além dos cartões postais. São João, às vezes, é muito fria com sua própria população. Certos prédios, igrejas e monumentos parecem ser mais importantes do que o povo, que construiu e constrói diariamente a história. O mais importante em um espaço público, seja ele histórico ou não, é a relação da população com ele”, defende Carozzi.

E foi esse cadinho cultural que deu fôlego ao filme de pouco mais de 12 minutos. “As personagens, sem dúvida, foram a melhor parte do documentário. Tentamos ouvir as pessoas que representam todas as facetas de São João: estudantes e a população que viveu boa parte do século 20 na cidade e viu tantas transformações ao longo dos anos. Um dos que mais me marcou foi um senhor que falou com a gente enquanto passava no canteiro central da avenida. Ele disse que foi nascido e criado ali, na Leite de Castro. Ele era o “gente boa” são-joanense. Alegre, saudoso e sempre sorrindo”, comenta Carozzi.  

Embora o capital humano seja o protagonista do documentário, nos 303 anos de São João del-Rei, não poderia ser ofuscado o trem que cortava a Leite de Castro, os trilhos ficavam justamente no canteiro central. Apesar dos mais jovens não se lembrarem, a locomotiva movimentava a Avenida com todos os seus vagões.

Uma cidade é construída por seus moradores, por seus espaços públicos e privados. Pela relação do homem com a história. História que pode ter uma parte escondida, mas que merece ser contada e registrada como elemento determinante da memória.     

Um comentário em “No aniversário de 303 anos de São João del-Rei, uma Lady faz história

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *