Pai Herói: no ar, mais um campeão de audiência

Por: Diego Alexandre*

A narrativa seriada do final dos anos 1970 ainda inspira uma geração de ‘novos’ autores. Destaque para Janete Clair, elenco e trilha sonora que embalou os lares brasileiros

Gloria Menezes e Tony Ramos como Ana Preta e André Cajarana (Imagem da internet)

Quando se assiste a uma reprise de novela, se você não for um telespectador que liga a TV apenas para passar o tempo, tem a oportunidade de voltar ao passado e ver (ou rever), conhecer e refletir sobre o pensamento, o comportamento, os costumes de uma época e o quanto isso mudou com o passar das décadas. Como se fosse uma máquina do tempo.

É isso que sentimos ao assistir “Pai Herói”, que vem sendo reapresentada desde o mês passado pelo Canal Viva. Aliás, esta é a primeira reprise da novela desde sua primeira exibição no longínquo ano de 1979.

Na época, o folhetim de Janete Clair parou o Brasil e se tornou um clássico que ajudou a consolidar o modelo de teledramaturgia que conhecemos hoje e que virou referência mundial. Agora, quase 40 anos depois, ele volta a ser sucesso colocando na liderança o canal Viva de TV por assinatura.

Cresci ouvindo falar dessa história através da minha avó e do meu pai (foi a novela que marcou a infância dele), e sempre tive curiosidade em assisti-la. Com o surgimento do canal Viva, em 2010, tornou-se possível o acesso a essas pérolas. Elas jamais voltariam à TV aberta devido ao atual “padrão de qualidade” das emissoras, que preferem reprisar produtos recentes gravados em alta definição.

Quem saiu ganhando foram os noveleiros de plantão! Hoje, posso dizer que “Pai Herói” é muito melhor do que eu imaginava. Não que a novela seja perfeita, na verdade está longe de ser. Mas mesmo com suas falhas de direção, principalmente na direção de arte (que chega a ser grotesca), isso acaba sendo deixado de lado devido ao texto primoroso da saudosa “Nossa Senhora das Oito” e sua incrível habilidade para segurar o telespectador.

A novela foi ao ar num momento em que o Brasil passava pelo processo de abertura política e, mesmo com a censura dominando os meios de comunicação, Janete conseguiu discutir temas como emancipação feminina, educação sexual nas escolas, racismo e divórcio, que havia sido recém-aprovado no Brasil.

A tudo isso, soma-se a maravilhosa trilha sonora, repleta de sambas que marcaram os anos 1970, e o elenco estelar, com o melhor time de atores da época reunidos numa só novela (destaque para Gloria Menezes, Paulo Autran e Carlos Zara, em interpretações antológicas).

Aos que torcem o nariz para o que a nossa televisão produz, só me resta lamentar. Ter acesso a essa obra, na íntegra, sem nenhum corte, do mesmo jeito que foi ao ar em sua exibição original, é um verdadeiro privilégio. A cada capítulo, sou obrigado a concordar com um comentário que li num vídeo do YouTube, que dizia que as novelas realizadas durante a censura da ditadura militar continuam sendo as melhores já feitas no Brasil!

*Jornalista e pesquisador de Cinema e Televisão

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