O palco silencioso: algumas reflexões sobre a sobrevivência do teatro

BISCOITO FINO

“A massa ainda comerá do biscoito fino que eu produzo

Oswald de Andrade

Por: Simone de Antonio*

palco-silencioso-do-teatro
O reino da gataria, musical infantil conquistou plateias

As crianças conhecem bem a sensação. Uma sineta toca uma vez, duas vezes, três vezes… então, a luz se apaga, faz-se silêncio. De repente, todo mundo concentrado olhando pro mesmo lugar… uma cortina vermelha se abre e um mundo mágico com pessoas de verdade – não imagens numa tela – aparecem vestidas de palhaço, de bruxas, de fantasmas, de reis e começa o espetáculo que dura uma horinha inteira ou mais de alegria e sonho.

Uma hora que elas não vão esquecer nunca mais na vida. Depois, os atores se despem de seus personagens e vêm, de mãos dadas, receber o aplauso da plateia que, quando fica de pé, é sinal de que tudo deu certo. Alguns choram, como no final de um filme emocionante. Mas ali é bem mais do que isso…

Falei das crianças porque lembrei da minha filha com uns dois anos de idade quando a levei ao teatro pela primeira vez. Ela viciou, até começar a dizer bem pequenina ainda: “Quero ser atriz de palco!”. O que, realmente, acabou acontecendo. Maktub! “Palco”, para ela, era o feitiço teatral.

E palco, no seu sentido mais completo, é mesmo o teatro. Não tem outro.

palco-silencioso-do-teatro
Vestido de Noiva, Nelson Rodrigues (1943), 1ª encenação moderna brasileira

Ali tem que ser ator de verdade e não só um rostinho bonito numa tela. Qualquer erro fica auto evidente, uma fala mal dita dói nos ouvidos, tudo é amplificado de um modo tão sensível que tem mesmo que ser ensaiado, diversas e diversas vezes. Porque não há edições. Tudo acontece ali, na hora. Passou. Já foi. Só dá pra fazer bonito na próxima vez, se houver a próxima vez. Por isso, ator de teatro tem horror de estreia.

“Ah, dane-se!”, devem pensar aqueles que não se importam com o teatro. É exatamente esse “dane-se” que mata qualquer tipo de arte e deixa no lugar dela um pastiche. Como se diz por aí: cada povo tem a arte que merece…

Quando comecei a me interessar pelo mundo da dramaturgia, a primeira coisa que me saltou aos olhos foi perceber que faltam autores de teatro no Brasil. A dificuldade pra encontrar um texto bom é imensa e, se alguém se der ao trabalho de pesquisar, verá que o teatro brasileiro vive em grande parte de obras readaptadas, revistas, reencenadas.

Outra coisa foi perceber que o teatro deixou de ser teatro no seu sentido mais completo. De um certo modo, ele se impregnou da linguagem televisiva. Cenas teatrais são substituídas, na prática, por um estilo que já nem é tão teatro assim. Há uma evidente desdramatização do teatro. Ele passa a absorver o naturalismo próprio da linguagem televisiva.

Quando o teatro vira pastiche

palco-silencioso-do-teatro
Stand up comedy invade os palcos

Algumas peças assemelham-se a shows costurados; outras lembram roteiro de filme; outras, pior ainda, novelas televisivas. Não é raro, conforme se pode observar em muitas peças, a migração delas para o cinema e, logo em seguida, para a minissérie televisiva na tentativa de espremer o suco até que fique só o bagaço. Isso sim é a verdadeira economia da criatividade…

Sem falar que o espaço teatral foi invadido pelo stand up comedy e umas coisas assim. Que lotam a casa e deixam a bilheteria gorda.

Pessoas não querem sair de suas casas pra vivenciar uma experiência teatral dramática, por assim dizer. Querem comédias leves, energia, música e dança, movimentação e, na maior parte das vezes, são peças que seguem essa tendência que conseguem algum tipo de sucesso.

Por isso, o ramo dos musicais no Brasil é um ramo promissor, diga-se, patrocinado.  Esse é o lado Broadway do teatro brasileiro, sem grande originalidade, mas com muito apreço à perfeição técnica. Um dos poucos que consegue salário para os atores, que na maior parte do tempo trabalham para ter o prazer, digamos assim, de estar no palco.

palco-silencioso-do-teatro
Os promissores musicais de pernas de fora

É, meus amigos, o teatro paga-se a si mesmo. Quem frequenta o teatro que não seja, claro, o dos famosinhos da Rede Globo, sabe que ele é feito na plateia de pais dos atores, pais e parentes dos diretores, amigos, e amigos dos amigos, e amigos dos amigos dos amigos e o resto é a própria classe artística que prestigia seus pares, ou não, dependendo das afinidades eletivas existentes em jogo…ou seja, amigos também!

Fazer teatro é como escrever poesia no Brasil. O poeta sabe que seu livro vai acabar numa prateleira empoeirada da livraria e só quem vai comprar vai ser talvez uns três amigos seus…e esses, comprarão por pura gentileza, mas também deixarão o livro sem ler, numa estante empoeirada de suas casas, na parte de baixo, onde um dia será varrido por uma faxineira mal humorada…

Teatro e público circunstancial

palco-silencioso-do-teatro
As Bacantes, Direção de Gabriel Pardella (Produção Universitária, UFRJ)

Percebam que as circunstâncias é que fazem o público teatral. Coloque um jogo de futebol e esqueça o teatro: ninguém vai aparecer. Coloquem uma chuva, um friozinho, e o povo vai pra debaixo da coberta comer mingau… Sem público não tem peça. O teatro precisa da plateia.

Esgotar ingressos, só famosinhos, como falei anteriormente. Ou o universitário, que cumpre agenda de formatura (direção teatral, cenografia etc). Como teatro de Universidade é um cubículo com cadeiras improvisadas, os ingressos se esgotam…

Dentro da proposta de grupo (seja o teatro universitário ou os grupos independentes que sobrevivem da criação dos próprios textos) há uma tendência à criação de uma linguagem coletiva.

Uma peça demora em média um ano para ficar pronta e passa por um processo de criação que envolve improvisações, criação musical, desenvolvimento dos personagens no nível individual a partir do trabalho dos atores, quase que apagando o texto propriamente dito, que é “construído” no próprio processo.

O que surge é algo inusitado, orgânico e democrático, num certo sentido, já que não há uma voz determinada (a do dramaturgo/autor) que é suavizada pela própria encenação.

palco-silencioso-do-teatro
Impacto visual. Explosão cênica. Foco nos atores

O resultado, em geral, é de um impacto visual profundo, com muita explosão cênica e foco nos atores. A concepção do texto propriamente dito não é mais o determinante, o que parece ser uma tendência atual.

Não estou problematizando aqui o fato de o teatro servir, em muitos casos, a algumas agendas de interesse público, quer para conseguir ser subvencionado por leis de incentivo ou patrocinado por empresas ocasionais. Nem vou entrar nessa discussão, que é imensa e envolve interesses políticos.

Como falei na minha reflexão sobre funk, aqui também entram em cena questões de representações sociais, interesses que escapam à arte pura e simples. É o teatro a serviço de um interesse qualquer. Esse tipo de teatro se torna, muitas vezes, quase panfletário, como é o caso de alguns concursos que inscrevem somente peças que correspondam às suas ideologias específicas e costuma envelhecer e cansar quando as pautas políticas mudam…

Atores de teatro são como órfãos

palco-silencioso-do-teatro
Desplateia

Fico aqui me alinhando com o teatro que luta para ser visto, aquele que não possui plateia ainda. Não a que merece, pelo menos. Atores de teatro são como órfãos soltos na floresta, desprotegidos, e vão correr a aventura de ter os bolsos vazios até que a sorte, o destino, o acaso determine o fim ou não de suas carreiras…

E, como não temos uma tradição teatral propriamente dita, os resultados são ambíguos, como é bem a cara do Brasil: há, de um lado, um teatro feito para uma maioria que produz teatro midiático, de efeito bombástico e resultado financeiro próximo do desejado e, um outro teatro à margem, que tenta se inventar e é desconhecido da maior parte da população.

Muito longe de esgotar esse assunto, quero contar uma historinha que considero emblemática e alguns já devem ter ouvido. Aconteceu na Itália, já faz um tempo. Foi noticiado pelo jornal Corriere della Sera.

teatro-silencio-vazio
O teatro vazio de Mongiano

Um ator faria mais uma apresentação de um monólogo de sua autoria no teatro Del Popolo de Gallarte, na Lombardia, com a diferença que era dia do seu aniversário de 70 anos, o que tornaria a apresentação mais especial. Eis que ele fica sabendo que nenhum ingresso havia sido vendido. Nenhum! Giovanni Mongiano subiu ao palco e resolveu fazer o espetáculo assim mesmo, na íntegra, como se a plateia estivesse apinhada de gente. A celebração solitária.

O que aconteceu depois, já se sabe: o mundo todo soube do feito de Giovanni. Basta que uma coisa dessas vire notícia e todo mundo fica aplaudindo…mas, parafraseando o grande Julio Cortázar em “O jornal e suas metamorfoses”:  o jornal serve ao final de lê-lo, para embrulhar verduras…

Já o teatro…

trem-de-ler

Um comentário em “O palco silencioso: algumas reflexões sobre a sobrevivência do teatro

  • 4 de Janeiro de 2018 em 19:11
    Permalink

    Olá Simone. Sinto dizer que há muito o teatro saiu dos palcos e foi para o plenário, para o fórum, para ruas, para nossas salas e quarto, transformou nosso cotidiano numa
    trágica encenação sem pé nem cabeça.

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *