“[…] não sou  propriamente  um autor defunto, mas um defunto autor”

“Nós que aqui estamos, por vós esperamos” (Foto: Douglas Caputo)

Erro por essas pedras, estreitas e largas, do tamanho que a cabeça consegue pisar. Encontro um conhecido, mas não o identifico de imediato. Joaquim, José. Ah, sim! É o João. Quanto tempo não nos vemos. Continuo pelo caminho. Ao virar a esquina, já são 3h da tarde, desconheço outros seres. Uns muito baixos, outros mais magros, outros menos morenos. Mas, a maioria, escondida pelas rugas e pela cabeleira branca, ou pela falta dela.

Fazia uns 25 anos que não passava por aquele lugar. Como as coisas mudam. Sem parar. Da outra vez que caminhei por essas ruas, ainda não havia a sombra desse prédio de esquina para refrescar minha memória. É nela que paro e, ofegante, lembro-me da minha primeira paixão, perdida para sempre nos labirintos da memória. Não sei se isso é bom ou ruim. Costuma dar uma vontade danada de chorar. Mas seguro, engasgado. Meu Deus, o que aconteceu com aquela árvore de ipê que brincávamos?

O rosto de mamãe já não é mais possível beijar. Mas sinto a maciez de sua pele quando fecho bem devagarzinho meus olhos e lembro-me dela falando: “– Juízo menino”. Eu, um rapagão de quase 17 anos de idade. Sem juízo nenhum, aos olhos de mamãe. Que saudade dessa bronca preocupada com minhas noitadas por aí. Deixava-a dormindo na sala. Às vezes, quando eu retornava para casa, meio torpe, encontrava-a na mesma posição. Beijava-lhe a testa e ia dormir, ou quase isso.

Do meu pai guardo umas poucas dúzias de lembranças. A melhor delas é quando ele me levava para passear. Seu carro, pelo menos para mim, era uma máquina alada. Cortava aquelas estradas vermelhas de pó e se perdia por caminhos de aventura. Sentia-me homem feito quando ele me colocava para guiar. Aí era uma festa só. “– Cuidado com o buraco menino”. Ele ralhava e eu ria um riso de deboche, que papai completava ao seu modo.

Quando virei moço, lá pelos 20 – não me lembro mais – arrumei as malas e deixei minha mãe na varanda. O choro dela estava por dentro dos olhos. Não queria deixar triste o menino que partia. No carro, o pai buzinava. “– Desse jeito, vai perder o ônibus”. Acabei mesmo foi me perdendo. Andei por tantos lugares, conheci tantas pessoas. Impossível lembrar. Mas uma ficou guardada. Impossível esquecê-la.

Seu nome era Ana. Ela era mais velha do que eu. Tinha por volta dos 25 e acabara de chegar dos arredores de Londres. Como tinha cabelos vermelhos e olhos azuis aquela rapariga. Encontramos-nos ao acaso e, também ao acaso, acabamos um dependendo do outro. Ela amou-me durante exatos 17 dias. Até que um senhor, com muitos vinténs a mais do que eu, comprou-lhe o seu amor. Ana me ensinou muitas coisas. Mas, por circunstâncias evidentes, não vou lhes contar aqui.

Depois de Ana, vieram tantas polacas que me perco por entre coxas torneadas, sussurros e juras de amor. Bem, mas onde estava mesmo? Ah sim. Eram 3h da tarde e eu à sombra daquele prédio penetra. Não sei se os jovens ainda usam esse adjetivo para se referir a quem não é convidado para alguma ocasião. Mas, enfim, a poucos metros de mim, desfilava o cortejo em direção ao cemitério.

Antigamente passava pelo Hospital. “- Ainda é assim?” Penso eu. Segui respeitosamente o caixão. “- Onde está a coroa de flores e a Lira a acompanhar o enterro?” Só pode ser de gente humilde… As lembranças não me deixavam em paz. E, a cada passo, não me reconhecia mais naquela cidade.

Não passava em frente ao Hospital e aquilo me desinquietava mais o espírito. Afinal de contas, onde foi parar o salão de beleza? A loja de veículos? E aquele boteco que vendia um fígado acebolado que nunca mais comi igual?

Também não entedia muito bem o que aquele povo falava. A essa altura, pelos dobres dos sinos, dava para ouvir que o cemitério estava próximo. “- Uai, mas quem encomendou o corpo?” Aos poucos percebi que tudo havia mudado. Pelo menos para mim nada era igual a antigamente.

O féretro adentrava um local estranho. A escritura em latim no portão, permitia ver um nome familiar. No entanto, tudo era novo. Se é que se pode usar esse vocábulo num cemitério.

Da extrema direita, ouviam-se os barulhos de algumas árvores frondosas. Impassíveis. Ao centro, um planalto verde com pequenas inscrições. Os epitáfios eram longos demais. Foram substituídos pelo nome e pelas datas de nascimento de morte. Nenhum choro. Compadeci-me do morto e ensaiei umas lágrimas que não quiseram sair.

Depois de descer a última pá de terra, ninguém presente além do coveiro e eu. Com calma, pude ver a placa de identificação do falecido: “EU”. Aquele era meu enterro. De fato, não me sentia vivo há muito. Desde que deixei minha mãe com o choro na varanda de casa e cruzei a fronteira para ganhar o mundo, havia matado o meu EU primeiro. Não possuía os amigos de antes nem os familiares.

Um a um, todos tombaram. E, não por acaso, meu exílio, minha fuga de mim mesmo, tombou a todos que um dia fizeram parte de mim. Inclusive eu mesmo. Já não resta mais nada. Apenas o som impassível das árvores que velam meu eterno exílio.

Por: Douglas Caputo: MTB:188844/MG

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