Sexualidade precoce: o lobo mau da infância

BISCOITO FINO

“A massa ainda comerá do biscoito fino que eu produzo

Oswald de Andrade

Por: Simone de Antonio*

Agora, a história é outra

Marcelo Tas falou, há um tempinho já, logo após a exposição do Santander, que citei na semana passada: “É engraçado que o Brasil agora esteja discutindo Museu…”

Pois agora, parece que o Brasil, Marcelo Tas, precisa discutir cultura. Por necessidade. Sabemos que o ser humano é um acomodado por natureza, só faz as coisas, só toma atitudes, por necessidade. Bom: se é assim, precisamos falar de cultura.  Por necessidade.

Já tem um tempo que eu venho discutindo no meu blog sobre essa questão, do que as pessoas vêm consumindo e como isso pode afetar a nossa vida, a nossa qualidade de vida como um todo. Mas não consigo tocar nem a ponta do iceberg que, a cada momento, somos assolados com o que eu vou chamar de uma “angústia cultural”.

Semana passada viralizou na internet um vídeo com um menino de 12 anos acendendo velhinha de aniversário com um bolo com a cara do Pablo Vittar e um namorado ao lado de 14 lhe dando beijinhos e abraços, enquanto a galera (pais? adultos?) cantavam em volta um animado parabéns que incluía as palavras: “rôla”, e outras mais que não vou falar aqui que sou moça fina de colégio de padre, e não quero contradizer o maravilhoso nome de minha coluna, inspirado por outros tempos melhores do que este.

Desde quando a infância deixou de ter palavras como bolinha de gude, carrinho de bate-bate, pique-esconde, roda gigante e, “era uma vez”? Parece que a brincadeira agora envolve outras estórias…

Estamos nos tempos de lobo mau. Muito mau. Tempos dos sequestradores de infância.

Ora, sabemos que vão vir alguns dizer que a infância sempre foi corrompida. Sempre teve coisas assim ou diferentes, mas muito ruins por baixo dos panos e que as coisas agora estão apenas escancaradas, porque sim, existe gente que vai defender isso ou no mínimo achar muito normal, sinal dos tempos.

Será?

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Papéis invertidos?

Se existiram corruptores da infância em outras épocas, e é fato que existiam, porque lobos maus existiram desde sempre, eles não andavam postando vídeos na internet por aí, com essa facilidade toda e corrompendo não só os filhos deles, mas os filhos de outros que assistirão àquilo, porque não devemos esquecer que as crianças já não vivem sem a internet, os celulares, que lhe dão aceso a esses conteúdos.

Reparem, meus amigos, que os pais, se eram os pais os que fizeram esse vídeo infame e tiveram a cara-de-pau de postar na internet, não tiveram a mesma coragem para aparecer nele. Vejam que covardia! Expuseram o garoto de 12 anos (nem sei, pra falar a verdade, se aquele garoto tem mesmo 12 anos, a mim, pareceu menos) e seu amiguinho de, supostamente 14, aliciaram e ficaram aplaudindo, DE FORA.

E, leia-se bem: não estou falando aqui da opção sexual desses meninos, pois sabemos que sim, isso é uma opção de cada um, que não diz respeito a ninguém, a não ser a eles mesmos, mas sim do conteúdo erótico envolvido na cena, bastante chocante, principalmente com as palavras usadas de baixo calão naquele momento de celebração.

E, NÃO, a infância não tem que ser assim. Desde a “boquinha da garrafa”, a infância vem sendo contaminada por uma série de ataques constantes à sua formação. De lá pra cá piorou muito, pois como explicar essa série de MCs funkeiros, infantis inclusive, que tentam fazer da infância um paraíso de sexualidade precoce enquanto roubam o espaço da imaginação genuína e pura dessa época?

MC Pedrinho, MC Brinquedo (com funk de conteúdo sexual) e MC Melody (de 8 anos, “adultizada” nas roupas e atitudes) estão entre outros tantos que vêm tornando a infância um palco de bizarrices difícil de controlar. E enquanto o Conselho Tutelar, a Ouvidoria Nacional e outros tantos segmentos que tentam lidar com isso, mas não conseguem, esses conteúdos seguem, incólumes, fazendo milhões de seguidores nas redes sociais, muitos adolescentes e crianças, sobretudo.

Ninguém está negando que o amor e a “sexualidade” não estejam presentes na infância, de uma forma ou de outra, pois todo mundo se lembra da inocência e da pureza desses amores que ficaram por lá….

 Disposições preliminares

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Meu primeiro amor inocente

Art. 3º A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta lei, assegurando-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.

 Cap. II

Artigo 18. É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor. (Estatuto da criança e do adolescente)

Num país em que a lei só existe no papel, ninguém lembra que infância é tempo de correr com os amiguinhos, de ouvir histórias, de participar de brincadeiras. E, se retiram a inocência até da infância, onde viverá ela? Qual o imaginário poético que as crianças podem vivenciar em nossa época?

E, se vivemos num país corrompido, queremos também corromper os inocentes?

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Para te ‘comer’ melhor

Mas, se os pais, esses seres tão ocupados que decidem colocar filhos no mundo, delegam à escola, à televisão, à internet a direção da vida dos seus filhos e só se lembram deles quando algum problema vem à tona, como fica a infância?

Dia desses fiquei besta mesmo de ver um garotinho de uns 3 anos, “dando piti”, porque a mãe tinha tirado, por um momento, o celular da mão dele. E ela falava, pausadamente com ele, parecendo uma tão boa mãe: “Calma, filho, eu já vou te dar”. E, logo assim que ela pôs a luz mágica nas mãos dele, seus olhinhos brilharam e ele se acalmou como um bebê que tomasse uma chupeta na boca…

E aí temos um exemplo da infância bombardeada nos seus primórdios por uma mídia que já não crê mais em nada, que já jogou a toalha e não sabe mais o que fazer, que nem se lembra do que se chama a palavra “educação”.

Sabemos que o mundo não anda pra trás e, como disse Cazuza: “o tempo não para”. Resta saber, como adultos que somos, que tempo queremos pra nós…

 

trem-de-ler

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