Viver, sofrer e lavar latrinas em Paris…

BISCOITO FINO

“A massa ainda comerá do biscoito fino que eu produzo

Oswald de Andrade

Simone de Antonio – Rio de Janeiro*

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Paris, a cidade além da luz…

Há pessoas que se dispõem a irem parar em Paris, ou em outro lugar, mundo afora, mas não para tomar vinho, assistir a espetáculos, visitar museus e fazer tours por onde quer que a vontade, o desejo, a moda, o tédio, a depressão, a alegria, ou os agentes de viagens conduzam-nas. Não! Elas vão para trabalhar, viver, sofrer, e morrer em Paris.

Escrevi Paris porque essa cidade é emblemática como destino de todo o mundo, mas poderia dizer Tóquio, Sydney, Bangkok e até o Rio de Janeiro. Esse icônico Rio, a cidade mais linda e mais louca do mundo.

Pode ser também que o trauma dessas pessoas seja tão forte com suas famílias, suas vidas pessoais, suas expectativas e tudo o mais, que as faz viverem em qualquer lugar – desde que não seja o Brasil – nem que seja para limpar latrina.

Fora o fato maravilhoso que é viajar pelo mundo como turista, leia-se bem, nada me faria sair daqui, morar em outro país e limpar latrina como estrangeira, sofrendo todo tipo de preconceito.

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Au pair

A não ser a miséria absoluta (moral e financeira). E espero que ela não chegue. Se chegar, SOCORRO! Nesse suposto dia, saibam vocês que estarei pedindo ajuda aos amigos e inimigos!

De qualquer jeito, admiro essas pessoas que se dão a essa aventura tão inóspita, muitas vezes. Dia desses não sei o porquê, me peguei assistindo a vídeos sobre au pairs.

Para quem não sabe, “Au pair” é uma espécie de faxineira, só que não: uma espécie de baby sitter, só que não; uma espécie de governanta, só que não; ou uma espécie de nada disso versus noves fora nada.

Ou seja, ninguém sabe exatamente o que é uma au pair. Talvez, por isso, haja tanta confusão e tanto engano em contratos estabelecidos entre patrões e empregados, nesse caso.

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Como no conto de fadas, o sonho estrangeiro pode transformar o príncipe em sapo

É curioso fazer um passeio pelo relato, muitas vezes emocionante, descontraído, quase despido de ego dessas pessoas tão corajosas, algumas ingênuas; ou outras, que simplesmente não tinham opção.

É como eu digo, a necessidade é a mãe de toda mudança. Só mesmo a necessidade (psicológica, moral, afetiva ou, simplesmente econômica – essa prostituta – consegue justificar essas coisas.)

Meus pudores de privacidade, minha eterna luta com a timidez, não me deixam entender como alguém consegue colocar a própria cara numa internet, aberta ao mundo todo e contar algo do tipo:

“Fui au pair no Canadá…e …”

Daí se segue aquele relato cheio de tristezas, de malas arrastando-se pela noite numa cidade desconhecida sem ter para onde ir, de mulheres seduzidas pelo patrão, de patroas loucas, que as põe fora de casa numa noite de Natal (sabe-se lá se é verdade, mas eu sou desse tipo que sempre acredito no que as pessoas me contam, até que provem o contrário). E, depois, elas acabam na rua dividindo um pão com um mendigo à meia noite…

É de doer. Eu chorei em alguns relatos, juro!

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Oliver Twist, órfão que “comeu o pão que o diabo amassou.”

Charles Dickens e Vitor Hugo mal teriam imaginado tanta angústia. Oliver Twist e Jean Valjean, seus personagens tão desafortunados, perdem diante das au pairs do mundo.

Mas todas elas dizem que “valeu a pena”, como naquela bela música do Rappa. Eu acredito. Porque somos basicamente seres feitos pra dar a cara à tapa.

Pode ser uma forma rápida de dar a cara à tapa com glamour e resolver seus karmas: tornar-se estrangeiro pelo mundo.

Todo mundo respeita isso, sei lá porque e sempre tem um quê de heroísmo nisso, se for em “Paris”, é claro. Se você disser que limpou latrinas lá fora é totalmente diferente de limpar na sua casa, naturalmente. “A grama do vizinho é sempre mais verde”.

Quanta diferença para a época romântica de Gonçalves Dias, quando as aves que lá gorjeavam não eram como as daqui…

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A ovelha negra

Seja como for, mesmo muito impressionada com esses relatos rocambolescos, penso que deve existir uma maneira melhor de purgar seus pecados.

E, além de tudo, a palavra “estrangeiro” me provoca arrepios. Acho que é porque sempre fui uma – até me chamaram uma vez de “estranha” – estrangeira, outsider.

Considerando que o estranho, o outsider, é o sujeito que segue as próprias regras, é o esquisito, o desabituado, o extraordinário, se te chamarem de “estranho”, agradeça, pois na verdade, trata-se de um grande elogio nesse país tão sem identidade, onde todos só cumprem seus papéis como ovelhas sem cabeça.

Afinal de contas, talvez eu também fosse capaz de limpar latrinas em Paris.

Au revoir!

trem-de-ler

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