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Jovem senhora de 90 anos

O Trem tinha vários trilhos e uma missão, escolher a personalidade que mais se destacou em 2017, em São Tiago. Pelo caminho, muitos embarcaram nos vagões. Mas, na estação final, o tapete vermelho foi estendido para uma senhora de 90 anos – a ESCOLA ESTADUAL AFONSO PENA JÚNIOR.

A eleição não foi motivada por grandes feitos ou pelo aniversário de nove décadas – sim, esses fatos pesaram – mas pelo que a instituição de ensino, em sua trajetória, ofereceu para todas as gerações que aprenderam mais do que letras e números. A grande lição da Afonso Pena foi e continua sendo construir identidades, transformar indivíduos em são-tiaguenses.

São-tiaguenses que se tornaram protagonistas de uma empreitada de ensino e também de socialização entre pares. Muitos personagens atuaram para costurar caminhos que poderiam se bifurcar, mas que se convergem no prédio símbolo da Praça Ministro Gabriel Passos, a principal da cidade.

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Anônimos célebres entre os são-tiaguenses

Entre esses anônimos que se tornam celebridades para os são-tiaguenses, está o servente Francisco Marcos de Almeida, o seu Chico. Durante os festejos que encerraram as comemorações dos 90 anos da Escola, dia 15 de dezembro, seu Chico era só emoção e orgulho. Ele trabalhou na Afonso Pena por 27 anos, até se aposentar, em 1999.

É com o olhos marejados, que seu Chico lembra da rotina que tinha na Escola. “Eu tocava o sinal e ia para o portão receber os alunos, todos muitos respeitosos naquela época. Se algum passasse mal, era eu quem levava para casa. Também plantava a horta e ajudava na cantina. Eu até rachava lenha para cozinhar, porque naquele tempo, não tinha fogão a gás”, lembra seu Chico.

Outra vedete do cotidiano da Afonso Pena, a cantineira Maria Marta Nogueira Almeida trabalhou na Escola entre 1993 e 2009. Sempre alegre e expansiva, comenta sem o repórter perguntar. “Você era mais retraído, mas sempre ia à cantina no recreio e me chamava para dividir a merenda que trazia de casa”.

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Quem não se lembra daquele som?

Dona Marta enfrentou tempos difíceis na equipe da cozinha. “Não tinha fartura, era sopa de farinha e mingau de fubá. Para não deixar os meninos sem merenda, a gente já pediu mantimentos em muitas casas. Carne, arroz, ovos, macarrão, isso veio depois”, destaca.

Quando ainda eram permitidas vendinhas nas escolas, Dona Marta caprichava na sua especialidade. “Eu era responsável pela pizza, mas ajudei a fazer muito croquete de farinha. Os alunos adoravam o bolinho como recheio do pão de sal, acompanhado pelo guaraná. Era moda, nada de tirar a tampinha, um furinho com o prego e todos se fartavam”, completa a cantineira.

Outra personagem que ajudou a formar a Afonso Pena, dona Nilda Reis Mata é considerada a professora viva mais antiga da Escola. Ela trabalhou na instituição por 42 anos, entre 1946 e 1988. Lecionava de tudo e seguia o rigor exigido dos mestres nos tempos mais antigos.

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Assim, juntos, só nas vistas dos mais velhos

“Tinha que chegar às 6h30, em ponto. Se atrasasse um pouquinho que fosse, o diretor descontava um terço do nosso salário, que ia para a caixa escolar. Naquela época era regra, todos os dias, antes de começar as aulas, os alunos tinham o momento cívico. Era obrigatório saber a letra do Hino Nacional e da Bandeira”, conta a professora. Ela lembra ainda que garotos e garotas, juntos, só na sala de aula. “Havia um muro que separava os meninos das meninas na hora do recreio. Tudo na disciplina da época”.

Apesar do rigor, havia espaço para as passagens engraçadas. E é rindo que dona Nilda conta uma dessas histórias. “Além das provas escritas, existiam os testes orais, cada professor era sorteado para avaliar um conteúdo. Certa vez, uma colega que dava aula de contação de histórias, foi sorteada para aplicar a avaliação oral de matemática. Como ela não sabia o conteúdo, desmaiou. Eu a socorri e a levei para farmácia do Henrique Pereira, onde se recuperou do susto”, ri dona Nilda ao contar.

Trem de sonhos

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Sonhos materializados

Ao completar 90 anos, a Afonso Pena é uma das instituições de ensino referência de Minas Gerais. Diretora desde 2006, Maria Auxiliadora Lara Silva, a Dorinha, faz questão de dizer que todas as conquistas da Escola nasceram de sonhos concretizados por alunos e equipe de profissionais que trabalham como um grupo coeso.

Coesão que transformou o impensado em realidade. “Em 2012, a Escola passou a ser reconhecida internacionalmente. Nossa equipe de robótica ganhou o título mundial de melhor programação de robô em competição realizada no México. Para 2018, estamos nos lutando para levar nossos meninos para o Canadá, já que com duas medalhas de ouro no Campeonato Latino-americano de Robótica, em novembro passado, conquistamos as duas vagas brasileiras para disputar o mundial em 2018”, comemora Dorinha.

O ano de 2012 foi realmente especial para toda comunidade escolar. “Obtivemos o melhor resultado do Ideb no país que, dentre outras coisas, é medido pela Prova Brasil. Em pouco tempo, nossa conquista estampava páginas da revista Veja, o que chamou a atenção dos brasileiros para a qualidade de ensino de uma escola pública localizada em um município pequenininho de Minas Gerais”, completa Dorinha, que naquele ano, por conta do resultado, viu a Escola ser homenageada pelos Três Poderes do Estado.

Como uma família – equipe da direção (Foto/acervo Escola)

Em 2017, mais reconhecimento. Por ser classificada pelo Governo do Estado como uma Escola Polo de Educação Múltipla (Polem), a Afonso Pena foi incluída automaticamente no “Meu Primeiro Negócio”, um programa que promove aulas de empreendedorismo nas instituições de ensino. A Escola são-tiaguense é a única da Superintendência Regional de Ensino (SRE) de São João del-Rei e uma das 58 Escolas de Minas que participam do seleto projeto criado em agosto deste ano. Além disso, é a única da SRE que ambienta cursos técnicos, entre eles os de Administração e Informática para Internet.

Não por acaso o coração de Dorinha pulsa mais forte ao falar da Escola onde estudou e onde pretende se aposentar. “É com muita emoção que olho para a trajetória da Afonso Pena, que é muito bonita, de uma Escola realmente majestosa. Tudo isso graças ao trabalho de todos, porque aqui, somos como uma família”, conclui.

Desafios para o centenário

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Pílulas de sonhos e desafios

Durante as comemorações dos 90 anos, uma cápsula do tempo reuniu retalhos de memórias que também alinhavam sonhos para a Escola. Lacrada para ser aberta apenas em 2027, quando a Afonso Pena vai completar 100 anos, a cápsula é símbolo dos desafios que a educação espera superar.

Professor de Geografia, Bruno Henrique dos Santos, afirma que um dos obstáculos a ser superado é a acomodação plena do ensino à era das tecnologias. “Esse é um ponto central. Hoje, observo como os dispositivos tecnológicos podem ser alienantes. É muito complicado filtrar o volume de informações que a internet oferece. Creio que nossa missão seja transformar tudo isso em conhecimento eficaz para os alunos”, enfatiza Santos.

Já para o professor de Língua Portuguesa, João Henrique Pereira, o sonho para o centenário é ver as famílias dos alunos mais engajadas com a educação. “Creio que essa barreira ainda deva ser desbravada. Ensino e família precisam estar mais conectados, já que um não funciona sem o outro. Talvez seja esse o grande desafio que temos pela frente”, completa.

Trem da história  

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Colecionando gerações

A Afonso Pena tem 1,1 mil alunos. Eles estão distribuídos entre os anos finais dos Ensinos Fundamental e Médio, na Educação de Jovens e Adultos (EJA), nos Cursos Técnicos e na Educação Integral. Mas nem sempre foi assim.

Conforme a secretária da Escola, Dircea Silva, até 1978, a Afonso Pena contava apenas com alunos de 1ª a 4ª séries. Em 1979, houve extensão, e a instituição passou a receber estudantes do 5º ano. Em 1980, a clientela aumentou. Em janeiro daquele ano, a Escola foi autorizada a implantar o 6º ano e, em fevereiro, vieram as turmas entre 7ª e 8ª séries.

No entanto, com a municipalização dos anos iniciais do Ensino Fundamental, em 1998, a Afonso Pena deixou de receber alunos do 1º ao 4º anos. Já em 2001, a comunidade escolar voltou a crescer. Com a paralisação da Escola Estadual São Francisco de Assis, foi implantado o Ensino Médio na Afonso Pena.

Embora esteja comemorando 90 anos, a Escola é uma senhora um pouco mais velha. Por meio de Decreto Estadual de 1917, foi constituído o Grupo Escolar São-tiaguense, que funcionava em casas da comunidade. Com o aumento da população, as residências não comportavam mais o número de alunos.

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Memória afetiva

“Foi então que comunidade e autoridades se uniram para construir um prédio próprio para receber os estudantes. Entre a pedra fundamental e a conclusão das obras, foram dez anos. E em 10 de fevereiro de 1927, foi inaugurada a Escola Estadual Afonso Pena Júnior”, conta Dircea.

O local virou um dos pontos de referência mais importantes de São Tiago. Por isso, a professora de Língua Portuguesa, Eliza Cristina, acentua que mais do que comemorar o aniversário de criação do prédio escolar, os 90 anos celebram a história que perpassa gerações de moradores da cidade.

“Celebrar esses 90 anos é uma maneira de se voltar para a construção da identidade dos são-tiaguenses. De alguma forma, a Escola está presente em todas as famílias de nossa comunidade e isso, por si só, já nos mostra a importância da instituição para todos nós”, ressalta Eliza.

A professora destaca ainda que a Afonso Pena funciona como uma espécie de atestado do que é ser são-tiaguense. “Sua construção na Praça Central da cidade parece nos lembrar, a todo instante, que é em torno da Escola que nossa comunidade se fortalece. Ela acolhe, agrega e reforça nosso sentimento de pertença a São Tiago”, conclui Eliza.

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