Basta nascer em Minas para ser um mineiro? (Fotos: Douglas Caputo)
Basta nascer em Minas para ser um mineiro? (Fotos: Douglas Caputo)

Jairo Faria Mendes*

Já no século XIX, o relato de viajantes deixa claro que o povo das Minas tinha muitas particularidades. “Os mineiros formam uma população à parte”, diz Ferdinand Denis, que viajou pelo Brasil de 1816 a 1831. A capitania (depois província) mostrava mistérios, confirmando os versos de Drummond: “ninguém sabe Minas”.

Os livros sobre a história das Gerais também mostram que o povo mineiro já tinha características bem definidas, no período oitocentista. Especula-se que fatores geográficos (as montanhas e a distância do litoral), econômicos (o apogeu e a decadência da exploração de ouro) e históricos (a repressão no período aurífero e as perseguições em razão da Inconfidência) influenciaram na formação do homem das Minas.

José Carlos Rodrigues diz que, no século XIX, o tradicionalismo e a moderação prevaleciam na província. “As idéias professoradas pelos prelados destas cidades se situam na perspectiva de tradicionalismo”. Os bispados tinham muita influência, durante esse período, nos destinos da região.

Alceu de Amoroso Lima, no clássico livro Vozes de Minas, que ele escreveu em 1942, sabe bem descrever o mineiro. Compara as Minas à Suíça, por representar o equilíbrio, e ter o importante papel de ser conciliadora. Para ele, o homem das Minas é irônico (semelhante ao inglês), realista, calmo, misterioso, contador de histórias, engraçado, terno, desejoso do meio termo, valorizador das entrelinhas, paciente, amante do passado, conservador, ordeiro, mas não cumpridor de leis, coletivista, econômico, simples, modesto, sem confiança, lento, fiel, fechado, indiferente aos modismos, perfeccionista, maduro (as crianças não têm direito à infância), ensimesmado, ligado à família.

O mineiro é o avesso à modernidade, de acordo com ele. “A força do mineiro, sua verdadeira modernidade está em não ser convencionalmente moderno. No dia em que um mineiro se trai a si mesmo e se submete a essa categoria de modernidade falsa, deixa de ser mineiro, corta as amarras com seu povo, com o seu passado, com as suas raízes e vai ser uma célula louca, perdida nos turbilhões do mundo, arrastada por forças exóticas, a que irá servilmente obedecer, com a ilusão de uma liberdade que não possui”.

No entanto, vários autores, como Sylvio Vasconcelos, Alceu de Amoroso Lima, Francisco Iglesias, José Carlos Rodrigues e Gilberto Freyre, destacam que existem dois momentos na formação do povo mineiro: um primeiro de uma sociedade rebelde e desordenada, e o segundo de estabilidade e moderação. Num dos raros momentos em que Gilberto Freire fala das Minas, em Casa Grande e Senzala, ele lembra da passagem do mineiro da rebeldia para a estabilidade. “(…) mineiros; os quais, passada a fase turbulenta do ouro e dos diamantes, se aquietariam na gente mais estável, mais equilibrada e, talvez, melhor nutrida do Brasil”.

Inicialmente, com a descoberta do ouro, as Minas foram invadidas por pessoas ávidas por riquezas, vindas de todas as partes. Foram aventureiros que chegavam transformando as Minas numa terra sem leis, onde prevalecia a violência e a libertinagem. De certa forma confirmava uma ideia muito forte na época de que o ouro trazia vícios, e não felicidade.

A religiosidade mineira é marcada pelo sincretismo do sagrado e do profano
A religiosidade mineira é marcada pelo sincretismo do sagrado e do profano

Por isso, na opinião de Camilo de Oliveira Torres, em História de Minas Gerais, um número enorme de igrejas foi construído na capitania no período setecentista. Segundo o autor, uma fé surgia, não pela santidade da população, mas pelo sentimento de culpa por uma “vida pecaminosa”. “Viviam dentro dos pecados da cobiça e dos pecados da luxúria, como dentro da água dos riachos de onde tiravam o ouro. Morriam todos arrependidos, porém, faziam penitências, construíam igrejas, alforriavam escravos na hora da morte (principalmente escravas, por motivos perfeitamente óbvios), pediam missas e missas, na esperança de que Deus afinal fosse clemente, principalmente apelavam para a Virgem. É deveras comovedora essa valorização da pureza por aqueles homens de vida terrível”.

Aproveitando desse “sentimento de culpa”, segundo Torres, muitos aplicaram o chamado “conto do vigário”. Pessoas mal-intencionadas, com barbas longas, vestes religiosas e imagens de santos pediam esmolas (e essas vinham fáceis) aproveitando a consciência carregada daquela gente.

No período do ouro, os moradores das Minas também eram obrigados a pagar as “conhecenças”, uma espécie de dízimo, com o objetivo de manter os clérigos.

Como descreve Alceu Amoroso Lima, no início do século XVIII, 90% das crianças que nasciam nas Minas eram bastardas. O viajante Richard Burton, em sua viagem as Minas, ficou impressionado com a libertinagem a que se entregavam todas as classes da sociedade.

De acordo com Maria do Nascimento Arruda, em Mitologia da Mineiridade, o mineiro apreciava muito o ócio, e era muito hospitaleiro. Com a esperança do enriquecimento fácil, o habitante da região não seguia a ética do trabalho. Como diz Arruda, “o acalanto do ouro provocava a paralisia do todo social, transformando as Minas no polo irradiador da preguiça nacional”.

O início da ocupação das Minas, do final do século XVII até meados de XVIII, foi marcado, de maneira mais forte que em qualquer parte da colônia, pela presença do que Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, chama do aventureiro. “Existe uma ética do trabalho, como existe uma ética da aventura(…) as energias e esforços que se dirigem a uma recompensa imediata são enaltecidos pelos aventureiros”.

Segundo o autor, o português foi um povo que seguiu a ética do aventureiro, buscando o enriquecimento rápido, e, por isso, destacou-se por sua ousadia no desbravamento dos mares. A colonização do Brasil é claramente marcada por essa postura de Portugal, que vai se expressar de forma mais evidente quando da descoberta do ouro nas Minas Gerais.

Minas, mais cervantina que camoniana
Minas, mais cervantina que camoniana

Nessa incerta aventura do ouro, de acordo com Arruda, o mineiro se assemelha a Don Quixote, e a mulher mineira a doce Dulcinéia. Para a autora, a personalidade do mineiro também lembrava o quixotismo, principalmente pela atmosfera romântica criada por uma atração pela imagem da morte e por um forte cavalheirismo. Com o declínio da exploração do ouro, o mineiro vai se assemelhando a Sancho Pança, fortalecendo seu senso de realidade.

A região também nasceu com um forte sentimento de opulência, sentindo-se privilegiada em razão das riquezas. “Minas nasce, assim, sob o signo da opulência e da ostentação, sua população sente que foi contemplada com a generosidade da divindade”, diz José Carlos Rodrigues.

As Minas do ouro trazem a ideia do encontro do paraíso. De acordo com Arruda, a região se diferencia do resto da colônia, representava a transformação em realidade do mito do “Dourado do Vupabuçu e Paraupava”.

José Carlos Rodrigues fala da arrogância das elites mineiras. “(…) comportava-se como uma projeção da monarquia portuguesa nos trópicos, e esta respirava a atmosfera de povo eleito”.

No entanto, como descreve vários autores, o perfil do mineiro se modifica rapidamente, à medida que vai se estruturando a sociedade local e se esgotando o ouro. De aventureiro, o mineiro vai se aproximando mais do perfil do trabalhador. Largando a ousadia, e tornando um povo conhecido pela moderação e pela simplicidade. O mineiro vai se enquadrando mais na definição de Alceu Amoroso Lima: “O mineiro não ama a inovação, a aventura, o risco à toa(…) Minas é a substância moderadora”.

Com a decadência do ouro, o mineiro perde sua ousadia e torna-se comedido e cético, na opinião de Sylvio Vasconcelos. Para ele, é como se nas Minas ficasse um clima de cansaço, desilusão e desesperança. Por isso, segundo o historiador, o mineiro fica ambíguo. “Por fora conforma-se, e adota comportamento adequado à nova situação. Por isso, o mineiro é duplo e antagônico. Em sua inércia dá um boi para não entrar na briga, mas a sua ancestralidade o leva a doar boiadas para não sair dela”.

Mas, segundo Mirian de Barros Latif, um dos traços típico mineiros, a desconfiança, vem do período do ouro, em razão da repressão ao extravio de riquezas. “A atmosfera é pesada. Não se ouve um conselho amigo que não seja de cautela”. A autora acredita que isso vai moldando a personalidade do mineiro, deixando-o precavido, desconfiado. Ela dá um exemplo: “Quando um viajante, procurando pouso, grita: ‘ó de casa’, a hospitalidade mineira logo o acolhe, sem nenhuma reserva. Recebe-o até com satisfação, à procura de notícias, de novidades, que, numa conversazinha, quebrem o alheamento em que se vive. Instala-se o forasteiro, cumulado de atenções, no quarto de hóspede junto à sala na frente da casa. Mas depressa esgotam-se os assuntos; em pouco já não há nada que aprender e, chegando a escuridão da noite, quando os fantasmas da imaginação põem-se a vagar mais à vontade, o forasteiro torna-se um intruso”.

O espírito conciliador e hospitaleiro são características dos mineiros
O espírito conciliador e hospitaleiro são características dos mineiros

Torres contando da viagem de D. Pedro I as Minas, pouco antes da Independência, indiretamente descreve o perfil do mineiro do século XIX. O autor diz que D. Pedro I queria “viajar como um mineiro”, ou seja, sem conforto nenhum. “(…) dormiria sobre uma esteira e faria travesseiro da canastra; alimentar-se-ia de feijão; à falta de pão, não desdenharia a farinha de mandioca”. Isso mostra o jeito simples de vida do homem das Gerais.

Chegando a Vila Rica, de acordo com Torres, José Bonifácio fez uma insinuação sobre a malícia dos mineiros. “(…) advertia ao Príncipe seu ministro José Bonifácio, com exagero bem andradino: ‘Não se fie V. A. R. em tudo o que disserem os mineiros, pois passam no Brasil pelos mais finos e trapaceiros da Terra, fazem do preto branco”. Falava da esperteza mineira, descrita também por Fernando Sabino: “Mineiro não perde trem. Mas compra bonde. Compra e vende pra paulista”.

Rodrigues considera que o mineiro vai ganhando o perfil moderado desde antes da independência. Ele diz: “reina em Minas uma atmosfera morna e deliciosa”. No entanto, para o autor com a derrota da revolução liberal de 1842, o povo das Gerais deixou de lado os radicalismos para aprofundar sua postura conciliatória. Isso se reflete na imprensa. Em 1842, morre o combativo jornal O Universal, e, em 1850, surge O Conciliador, que o próprio nome já demonstra a sua postura.

Para entender o perfil do mineiro de hoje é importante saber como ele foi se formando nos três séculos das Gerais. Sua passagem de aventureiro a trabalhador; de rebelde a conciliador; de D. Quixote a Sancho Pança. E ver como, ainda no século XIX, formaram-se aquelas características que consideramos típicas do povo mineiro.

* Jornalista, professor da UFSJ, autor do livro O ombudsman e o Leitor e doutor em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo, onde desenvolveu tese sobre a imprensa mineira no século XIX.

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