Tsunami mineiro completa um ano neste sábado

Grades do cemitério de lama podiam ser de cadeia para culpados (Antonio Cruz/Agência Brasil)
Grades do cemitério de lama poderiam ser de cadeia para culpados (Antonio Cruz/Agência Brasil)

O aclamado diretor dos impactos visuais, Steven Spielberg, nem precisaria de roteiro. No primeiro plano, algumas crianças brincando numa vila. Uma delas percebe um barulho na gigantesca represa que ladeia o local.

O céu escurece e pá! A barragem se rompe, os meninos saem correndo e os close-ups no rosto de mulheres apavoradas são o corte para mostrar o tsunami de lama que desce com violência e engole tudo pela frente.

Um casal consegue subir até um ponto mais alto. Ficam dias isolados, famintos. Mas há um clima de paixão no ar. Eles são resgatados por um helicóptero com militares. Enrolados em cobertor e depois de um voo panorâmico, o beijo arrebatador.

O happy end que anuncia um futuro melhor. Os personagens que milagrosamente conseguem sobrepujar a força devastadora da natureza – sim, a “natureza” é culpada – e se reerguerem em um novo começo.

Bilheteria estrondosa, algumas indicações ao Oscar, red carpet para a starlet. Só que não. Toda a tragédia é uma narrativa do real. Conta a história do maior crime ambiental já ocorrido no Brasil. Lama e devastação.

Os números comprovam e condenam a Samarco, empresa dona das duas barragens que se romperam: 19 mortos, 40 cidades de Minas e do Espírito Santo atingidas pelo tsunami, 22 pessoas denunciadas, apenas um acusado de homicídio com dolo eventual (quando se assume o risco de matar). Penas que podem chegar a 54 anos.

Um Rio Doce amargo, um mar fétido e sem vida.

Nada repara os danos criminalmente praticados pelos vilões dessa história. E não, não se trata de uma narrativa de vitimização, mas de justiça a favor daqueles que perderam tudo na lama podre do capitalismo devorador, tsunâmico.

A vida, aos poucos, vai se refazer. Os figurantes – ou seriam protagonistas? – vão conseguir se reestruturar, porque mineiro é o homem forte da montanha e o capixaba tem olhos para o sem fim do horizonte. Mas a subjetividade e o trauma não vão se apagar.

O final pode até ter happy end, mas nos créditos vai subir: “aqui jaz as vítimas de um genocídio praticado pela Samarco Lama Podre”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *