Por: José Antônio Antônio Oliveira de Resende*

Às vezes, o silêcio é o melhor  elogio. Do contrário, pode dar zebra (imagem da internet)

Às vezes, o silêcio é o melhor elogio. Do contrário, pode dar zebra (imagem da internet)

– E aí, meu bem? Que tal?

A primeira reação do marido foi de estranhamento. Depois que sua retina se apaziguou, Francinildo afinal pôde constatar o facilmente constatável: sua mulher parecia uma zebra.

– Gostou ou não gostou, meu bem?

– É… o… quer dizer… acho que se… isto é…

Darcilene era muito sensível. Qualquer crítica e era um Deus nos acuda. Chantagens, lágrimas, xingamentos… E aí, já era o jantar de bodas de prata do amigo senador. Mas a verdade é que Darcilene estava ridícula naquele vestido listrado. Nem mesmo em teatro infantil alguém se vestiu tão igual a uma zebra. E aquele chapéu? As franjinhas caídas de cada lado. Até crina a zebra tinha!

– Você está meio quieto, Francinildo. Acho que é o chapéu.

Até que enfim! Pelo menos, ela iria sem aquela escovinha mole em cima da cabeça. Porém, Darcilene apenas mudou a posição do chapéu, realçando ainda mais a crina. Francinildo já estava temeroso de haver alguém do Ibama na festa.

Quando chegaram à casa do senador, aquele clima chique. Muita gente, decoração requintada, música tocando, algumas rodinhas formadas, garçons que nem pinguins atarefados, petiscos variados e bebidas finas. O casal cumprimentou o senador e a esposa, que, por sinal, muito magra e alta e naquele vestido longo apertado, lembrava uma jiboia refinada. Depois dos abraços, beijinhos e elogios descarados, Francinildo e Darcilene procuraram se enturmar. E cada um foi pro seu lado.

De longe, Francinildo observava Darcilene. Ao lado dela, uma senhora toda de oncinha. Um tailleur e uma saia até o meio da canela, tudo imitando pele de onça. Uma outra usava uma echarpe peluda, igualzinho juba de leão. Uma zebra entre uma onça e um leão. Darcilene não sabia o risco que estava correndo.

O tempo passou e, lá pelas tantas, um grito. Francinildo imaginou o pior: a sua zebra acabara de ser devorada. Mas não. Era a jiboia do senador dando um grito de emoção quando o marido pegou o cavaquinho e começou a tocar o “Urubu Malandro”. Mais um bicho.

Depois disso, os músicos capricharam em outros ritmos e todo mundo começou a dançar. Francinildo dançou com a zebra, rodopiou com o leão, pulou com a onça e pisou no rabo da jiboia. Noite inesquecível. Francinildo era uma mistura de Noé profano e Tarzan folião. No momento, ele dançava com a Rosenda. Loura, toda de verde, quase parada e balançando apenas o pescoço: um papagaio. De repente, Darcilene:

– Você só dançou uma vez comigo. Vamos dançar de novo?

– É claro, minha zebrinha!

Não precisou de mais nada. A zebra virou jararaca e pisou duro. Darcilene fechou a cara e quis ir embora. Para ela, a festa tinha acabado.

No caminho, Francinildo ainda tentou contornar, dizendo que a zebra era um animalzinho engraçadinho, que as listras da zebra eram fantásticas, que o vestido era uma elegância só… Até inventou que no Bangladesh a zebra é o símbolo da sensualidade feminina. Não adiantou.

Tem uma semana que a Darcilene dorme sozinha no quarto e o Francinildo no sofá. Mas isso passa logo. Ontem mesmo ele viu a esposa chegando com uma porção de sacolas de compras. Havia algumas peças de couro.

Sadomasoquismo? Não… Darcilene nunca foi chegada nessas coisas.

Acho que está vindo um jacaré por aí.

José Antônio

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