LGBTQIA+ em São Tiago: desafio e superação

A diversidade de gêneros e orientações sexuais é celebrada hoje. Embora o cenário local esteja um pouco mais livre, opressão ainda faz parte da rotina de são-tiaguenses não heterossexuais

O Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ é celebrado nesta segunda (28). A data marca a luta contra o preconceito, a violência e a discriminação sofridos pelas pessoas em função de seus gêneros e orientações sexuais.

Esses desafios ainda são enfrentados pela comunidade LGBTQIA+ de São Tiago. Exemplo disso é um casal de mulheres ouvido pelo Trem de Ler.

Por medo de sofrerem represálias e até não conseguirem emprego em São Tiago, as duas optaram por não se identificar. Fato que registra o padrão heteronormativo ainda predominante na cidade.

“Não queremos ser rotuladas. São Tiago é uma cidade pequena, onde todos se conhecem. Então, vivemos nos policiando para evitar uma agressão verbal ou até física”, enfatiza o casal.

Os constrangimentos narrados pelo casal também interferem na vida social das parceiras que começaram a namorar em 2009 e que moram juntas desde 2016.

“Em público, não nos portamos como um casal e temos consciência de que é melhor assim. Isso faz com que nossa vida seja o mais ‘normal’ possível”, declaram.

Perguntadas sobre o que é ser “normal”, as duas entendem que “é ter um padrão heteronormativo, embora isso nos anule muito”.

Apesar das duas terem que superar os desafios diários da união homoafetiva numa cidade pequena, elas desejam uma convivência pacífica com a sociedade.

“Sonhamos muito com um mundo melhor, pois só nós sabemos o quanto é dolorido o discurso de preconceito do outro para você”, afirmam.    

Casamento

O silenciamento do casal é confirmado pelo Cartório de Registro Civil de São Tiago, que informou ao Trem de Ler que ainda não há registros de nenhum casamento LGBTQIA+ na história da cidade.  

Mas, em 2019, houve uma celebração religiosa LGBTQIA+ no município. O são-tiaguense Sandson Almeida Rotterdan casou-se com o fabricianense Jonathan Félix de Souza.

Os dois já haviam adquirido núpcias no Civil em Belo Horizonte, em 2016. Rotterdan comenta que o casamento em São Tiago não foi um evento perturbador para sociedade. Embora ele pontue que morar na capital possa ter blindado os noivos da discriminação direta.

“Eu não percebi muita movimentação, sobretudo por residir em Belo Horizonte. De modo geral, houve curiosidade por ser um casamento gay e por eu ser relativamente conhecido em São Tiago, pelo fato de eu ter sido seminarista na Igreja católica”, conta.

Rotterdan diz ainda que “as pessoas com as quais Jonathan e eu convivemos foi de acolhida e empatia”. Mas ele lembra que para alcançar essa empatia foi preciso que outros são-tiaguenses desafiassem a sociedade patriarcal.

“Fico pensando que várias pessoas de São Tiago, mais velhas que eu e que são LGBTs, sofreram muito mais preconceito e que abriram caminho para hoje eu poder estar fora do armário. Queria aqui prestar homenagem e reconhecer a cada uma e cada um”, salienta Rotterdan.

Para aqueles que ainda habitam o “armário”, Rotterdan afirma que é preciso coragem para romper com as amarras sociais que oprimem diferentes recortes sociais. Para ele, “enquanto houver uma pessoa oprimida, a sociedade permanece doente”.

“Conheça-se, prepare-se para muitas pessoas virarem a cara para você. Mas se prepare, também, para a liberdade, para conhecer um mundo novo que você pode ser o que é, com pessoas mais humanas do que muitas que você conhece. Só posso dizer para os que querem sair do armário: coragem, mas ser si mesmo é uma delícia!”, acentua.

Assistência Social

Apesar de São Tiago não possuir um programa assistencial específico para o grupo LGBTQIA+, a secretária Municipal de Assistência Social, Flávia Portella, ressalta que a pasta segue as políticas públicas do Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBTs.

“Falar de garantia de cidadania para população LGBTQIA+ é, antes de tudo, garantir que lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais tenham acesso a seus direitos básicos e sejam respeitados/as, independente de sua orientação sexual e identidade de gênero”, comenta Flávia.

Para a secretária, o combate ao preconceito perpassa a construção de uma socialização mais fraterna e informada sobre as diferenças que permeiam a existência humana.

“Partindo do pressuposto de que o preconceito é fruto da ignorância e da falta de informação, precisamos desconstruir as ideias equivocadas que estão arraigadas em nossa sociedade sobre a população LGBTQIA+”, comenta.

Flávia ainda ressalta que “a Secretaria Municipal de Assistência Social está de portas abertas para receber os cidadãos, principalmente para acolher os usuários que se sintam tolhidos em seus direitos”.

LGBTQIA+

O movimento contra os abusos sofridos pela comunidade gay nasceu nos Estados Unidos, em 1969.

Naquele ano, gays, lésbicas e travestis que frequentavam o bar Stonewall Inn, em Nova York, resistiram por três dias às agressões que enfrentavam de policiais.

O ato virou um marco por mais igualdade de direitos. Surgiu a sigla GLS, que designava gays, lésbicas e simpatizantes do movimento.

Mas a sigla logo se tornou ultrapassada. Com o aumento da diversidade de orientações sexuais e de gêneros, novas letras foram incorporadas.

A sigla LGBTQIA+ se desdobra em lésbicas, gays, bissexuais, transexuais ou travestis, queer (termo inglês que designa quem transita indefinidamente entre gêneros e orientações sexuais), intersexo (que possui corpo com dois genitais, ou aqueles que possuem determinado genital que não condiz com sua orientação de gênero), assexuais e demais orientações sexuais e identidades de gênero.

A definição é superficial e o Trem de Ler a emprega apenas para fins jornalístico, mesmo porque há vasta literatura sobre o tema, com diferentes pontos de vistas. Para saber mais, o Grupo Gay da Bahia possui várias publicações sobre o assunto.   

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