Jovens na pandemia: angústias e sonhos diante do novo normal

Jovens são-tiaguenses contam ao Trem de Ler como a pandemia alterou suas vidas. Apesar das incertezas, eles confiam que relacionamentos sociais sairão fortalecidos da crise sanitária

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Ela chegou abruptamente e se instalou como quem diz: “este lugar é meu”. Ao se apossar da rotina das pessoas, a pandemia impôs um novo normal que superdimensiona a sociedade da vigilância. Entre os jovens, a covid-19 determinou incertezas a uma fase da vida que já é marcada pela ansiedade sobre o futuro.

Acostumados à socialização plena, os mais novos chegaram a ser vilanizados como responsáveis por levarem o coronavírus aos mais vulneráveis. Asfixiados pela redução drástica dos encontros sociais, jovens são-tiaguenses revelam ao Trem de Ler como a rotina pandêmica alterou suas vidas.

Estudante de 17 anos, Livia Braga lamenta que os espaços de interação tenham sido limitados, quase exclusivamente, ao convívio familiar. Sem poder ir à escola ou sair aos finais de semana, a jovem perdeu os principais pontos de referência que permeavam e ajudavam a construir suas identidades. Fatores que pesam no cotidiano vivenciado desde março de 2020, quando foi decretado o início da pandemia.        

“Nos finais de semana, encontrava meus amigos e nos divertíamos muito somente colocando o papo em dia. Fazíamos planos para o futuro, era uma coisa comum e despreocupada. Sinto saudade de ter essa leveza na alma, de não estar todo momento preocupada com o que pode acontecer. Sinto saudade de poder abraçar pessoas sem ter que me preocupar se poderia me contaminar a partir daquele abraço”, enumera Livia.

Jovens: saúde mental e educação

Se antes da pandemia a internet era um espaço de socialização agradável, depois da crise sanitária, ele se tornou um ambiente exaustivo e até claustrofóbico para os jovens. As horas acumuladas diante da tela do computador ou do smartphone geram mais ansiedade entre os adolescentes. Livia já percebe como isso alterou os encontros face a face.

“Percebi, recentemente, que já não consigo manter uma conversa olhando para a pessoa com quem estou dialogando e isso é resultado de estar há mais de um ano e três meses praticamente fechada em casa e mantendo relações via internet. Umas das situações que mais me entristeceu foi a perda de expectativa num futuro melhor. O momento que Brasil vive me deixa extremamente insegura quanto a conseguir ser realmente feliz e realizada novamente”, revela a jovem.

A preocupação com o bem-estar emocional também é compartilhada pela estudante de 20 anos, Isabella Costa Vivas. Apesar de manter o otimismo, a futura advogada sentencia que a rotina quebrada pela pandemia impactou, negativamente, nos planos que havia estabelecido como meta de vida. É com angústia que a jovem conta o afastamento compulsório da vida universitária.

“Todos nós temos sonhos, e o meu, dentre muitos, era ingressar na faculdade. Quando passei, foi indescritível, conheci pessoas e fiz laços muito importantes. Diante desse momento que estamos passando, metade das minhas perspectivas não foram alcanças. E o sonho, a ilusão que eu criei sobre a universidade, caiu sobre terra”, julga Isabella.

A jovem ainda acrescenta que as incertezas sobre a carreira são perturbadoras. “Minha ansiedade aumentou muito, por não ter uma rotina pré-estabelecida. Por pensar que, talvez, eu não consiga viver essa fase maravilhosa de uma vida universitária comum. Por achar que não vou conseguir aprender o bastante para me dar bem no mercado de trabalho”, completa Isabella.

Se para Isabella o futuro é líquido e incerto, para o estudante de Ciências da Computação, Thiago Odilon, a pandemia ressignificou os usos da internet. O que amplia as possibilidades de trabalho para o jovem de 20 anos de idade.

“Dentro da minha área, acredito que a pandemia impulsionou muito o trabalho remoto, que certamente será muito aplicado no futuro”. No entanto, a interrupção das aulas presenciais frustra uma experiência mais completa que a universidade proporciona.

“[Quando a pandemia começou] eu tinha acabado de entrar na faculdade. Lembro que foram duas semanas de aulas na UFSJ, indo de bate e volta de ônibus. Eu estava gostando muito de conhecer novas pessoas, sempre quis ter essa experiência universitária. Com isso, uma rotina que estava se iniciando foi interrompida [pela pandemia]”, lamenta Tiago.

Romance

A juventude também é a fase da vida das descobertas românticas. No entanto, a pandemia minimizou as chances das paqueras. O jogo da sedução, baseado na troca de olhares, nas insinuações para o outro, ficou limitado às trocas simbólicas possibilitadas pelas redes sociais. O que pode gerar um isolamento ainda maior para os jovens.

Aos 19 anos de idade, Camila Assis brinca que teve “duas chances de desencalhar” durante a pandemia. Mas como foi “tudo muito turbulento”, ela optou por ficar solteira. Para a jovem, uma chance para experienciar o autoconhecimento com mais serenidade, já que declara não estar à procura de um novo amor.

“A pandemia veio para mudar a nossa percepção de vida. Eu, por exemplo, estou aprendendo a gostar de mim, a me priorizar. Estou tentando procurar o meu amor próprio para, depois, poder realmente gostar de alguém. Estou no período de me conhecer”, reflete a jovem.

O medo de contaminar e ser contaminado pelo coronavírus também preocupa os jovens. Isabella diz que a impossibilidade do estar junto dificulta o jogo da paquera. “Pelo fato de não poder sair, se encostar, se abraçar, tudo fica mais complicado. Então, é difícil você ir a um encontro, se arrumar, pois nunca sabemos se o outro estará ou não infectado com o vírus”, afirma.

Jovens vilanizados

A narrativa de vilania imposta aos jovens como responsáveis por aglomerações e transmissão do coronavírus é desmentida por aqueles ouvidos pelo Trem de Ler. Conscientes das medidas de prevenção, eles afirmam que procuram respeitar as normas de segurança para proteger os familiares.

Exemplo disso é a estudante de 16 anos de idade, Letícia Santiago. Sem poder ir à escola, ela diz que reduziu, sobremaneira, os encontros com pessoas que não fazem parte do convívio familiar. Ao afirmar que segue os protocolos sanitários, a jovem argumenta que é um equívoco culpar os mais novos pela transmissão do coronavírus.

“Na maioria das vezes que saí de casa, foi por necessidade e, se por acaso eu levasse o vírus para minha casa, não seria motivo de julgamento, pois meus familiares sabem que tento me cuidar o máximo que posso”, enfatiza a jovem.

Lívia reitera. “Apesar de ter flexibilizado a quarentena umas poucas vezes para a manutenção da minha saúde mental, acredito que não tenha corrido perigo extremo, a ponto de trazer o vírus para a minha casa. Então, não vejo como me encaixaria nessa definição de vilã”, acentua.

Embora o momento ainda seja de tensão e conflitos internos, os jovens acreditam no futuro. Isso porque eles classificam a pandemia como um momento de “amadurecimento”. Para eles, a pandemia vai gerar uma sociedade mais fraterna e preocupada com bem-estar do outro.

Por isso, do ponto de vista dos entrevistados, o novo normal pode ser o movimento necessário capaz de mudar a forma de relacionamento entre as pessoas.   

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